Proclamar Libertaçao -
Auxílio para o anúncio do Evangelho
É uma coleçao que vem desde 1976 como fruto de um trabalho de mutirao do qual participa muita gente do Brasil e da América Latina. O trabalho exegético, a reflexao, os subsídios litúrgicos sao contribuiçoes para a preparaçao do culto, dos estudos bíblicos e de outras celebraçoes na vida comunitária. Pedidos de exemplares para
MATEUS 17.1-9 -
2 PEDRO 1.16-21
ÊXODO 24.12-18 Valdemar Lückemeyer
1 Introdução
O último Domingo após Epifania encerra um período do calendário
eclesiástico, a saber, o período entre Natal e Quaresma. O calendário eclesiástico
quer-nos ajudar ao lembrar que o tempo da luz, iniciado com o nascimento
de Jesus Cristo, continua brilhando. É o tempo entre o nascimento, a
manjedoura e a morte de Jesus, a cruz.
A comunidade certamente não tem clareza sobre o conceito “Epifania”.
Natal e Quaresma são épocas e datas do calendário eclesiástico bem
claras para a grande maioria. Por isso, entre outras, convém lembrar a comunidade
desse período, seu significado, seu específico: Deus revela-se, apresenta-se, veio ao mundo em Jesus, o nascido em Belém. Ele é o Messias, o
Salvador. “Ouçam-no!”
Jesus é o Senhor. Nele Deus se revelou – disso falam as duas leituras
bíblicas deste domingo.
2 Pedro 1.16-21 ressalta que o senhorio de Jesus Cristo não é algo inventado
ou sonhado por algumas pessoas, por alguns fanáticos seguidores
seus, mas é realidade que se baseia no testemunho ocular dos apóstolos.
Eles estão falando e anunciando o que viram e ouviram: “Este é o meu Filho
amado, em quem me comprazo”.
O senhorio de Jesus estava sendo questionado e não aceito por alguns.
A eles Pedro, em sua segunda carta, responde não com argumentos
racionais, mas usa apenas o testemunho ocular como argumento: “Nós vimos
e ouvimos”. Nós não temos outras garantias, apenas a palavra, o testemunho
apostólico. E assim como os apóstolos, também as profecias apontam
para Jesus: ele é o Deus conosco, que traz luz (epifania), que afasta as
trevas, que vem trazer a verdade que salva.
Mateus 17.1-9 sublinha o que já se ouviu por ocasião do batismo de
Jesus (Mt 3.13-17): “Este é o meu Filho amado, em que me comprazo”. Este
Jesus, incompreendido por alguns, não aceito por outros, é o enviado de Deus.
Deus revela-o nesse encontro extraordinário, divino, incomum no alto de um
monte. A Bíblia privilegia montes como o lugar onde Deus se manifesta e se
comunica (Gn 19, 22 e 24, entre tantos outros).
2 Considerações exegéticas
É muito provável que em Êxodo 24 encontramos relatos de duas fontes
literárias distintas: uma, a mais velha, relata a caminhada, a peregrinação
do povo de Deus pelo deserto após a saída do Egito. A migração em direção
à Terra Prometida tem sua tradição conhecida e fixada. A outra fonte, a
mais nova, é o bloco que descreve os acontecimentos do Sinai, deserto e
monte do Sinai. Moisés recebe orientações de Deus quanto às celebrações, à
preparação e ao local do culto. Os v. 12-18 formam a introdução para o momento
extraordinário do encontro de Deus com Moisés, quando esse recebe
as tábuas da lei. Curiosa é a dupla menção de que Moisés subiu ao monte
(v. 13 e 15). Provavelmente se trata de inserção posterior, é “montagem” de
vários blocos outrora isolados e separados.
Moisés sobe ao monte, onde deve ficar por um longo período. Ali recebe
as tábuas de pedra. Essas contêm, conforme acréscimo e informação posterior,
a lei e os mandamentos (v. 12b). Moisés leva seu ajudante, seu servidor
Josué junto e deixa como zeladores e protetores do convívio do povo dois
representantes, dois presbíteros: Arão e Hur. Muito pouco é dito sobre suas
funções, além de ajudarem na busca de soluções em casos de dúvida e de
conflito.
Com o v. 15b inicia um bloco novo da fonte do Escrito Sacerdotal (P):
inicia em 24.15b e vai até 31.18, onde é descrito detalhadamente que Moisés
recebe todas as orientações para organizar e regularizar o local santo para as
celebrações, para o culto. Esse bloco está ligado ao cap. 19.1 e 2.
A glória de Deus revela-se na nuvem – a nuvem e o monte evidenciam
a presença de Deus. Para a teologia deuteronomista, Deus mora no céu; na
terra Ele colocou seu nome no local do culto, local sagrado – posteriormente
no templo. A “glória de Deus”, isto é, sua grandeza, sua excelência, sua majestade,
sua imponência, é exclusiva, propriedade apenas de Deus, embora
ela preencha toda a criação (Is 6.3) e esteja presente nas revelações de Deus.
A tradição do Sinai contrasta também com a tradição do Êxodo no que se
refere à compreensão de Deus. São duas teologias, duas maneiras diferentes
de falar de Deus: “O culto a Javé realiza-se, inicialmente, num determinado
local. Peregrina-se para adorar esse Deus. Javé distingue-se, pois, do culto
do Deus dos pais. O Deus paterno comemora uma divindade acompanhante;
Javé comemora um Deus local. Não é um Deus que vem. A gente é que vai a
certa localidade para encontrar-se com Deus. O local da celebração é um
monte. ‘Javé é uma divindade de montanha.’ Ao estar vinculado a um lugar,
o divino como que requer que o crente peregrine a um local específico, onde
se dá a manifestação, a teofania. A teofania de Javé está relacionada a fenômenos
da natureza, como no-lo atestam diversos textos” (Milton Schwantes,
em História de Israel – local e origens, polígrafo editado em 1984, p. 156s.).
Para o Escrito Sacerdotal, é importante o fato de que no evento do Sinai
Deus transmitiu todas as orientações para estabelecer o culto. É preciso observar todos esses detalhes, todas as descrições para que Deus possa ser
adorado corretamente. Ele mesmo ordena e orienta todos os detalhes para a
perfeita celebração. Isso legitima o culto, isso o fundamenta, pois é ordem
divina.
Interessante que a descrição do local do culto e todos os seus pormenores
aqui no deserto estão orientados claramente no futuro templo em Jerusalém.
Para o Escrito Sacerdotal, o local sagrado, por excelência, é o templo
em Jerusalém. Ele detém e contém todas as orientações do evento do Sinai.
Dois números simbólicos aparecem nesse relato da apresentação
(teofania) de Deus: no sétimo dia, Deus chamou Moisés e este ficou 40 dias e
40 noites no alto do monte.
3 Meditação
Último Domingo da Epifania – É tempo de celebrar a presença gloriosa
de Deus em nosso meio. Ele revelou-se. Disso ouvimos no Natal. Disso fomos
lembrados nesta época de Epifania, que se encerra neste domingo. Deus
revela-se a seu povo. Vem a seu encontro e deixa as suas orientações e recomendações
para que sejam ensinadas e obedecidas. O pacto que Deus fez
com o povo por ocasião da libertação da escravidão tinha justamente como
fundamento o compromisso mútuo: “Eu sou o vosso Deus, vós sois o meu
povo” (Êx 6.4,6; 19.5 e outros), se “diligentemente ouvirdes a minha voz,
guardardes a minha aliança” (Êx 19.5). Deus revela-se através de manifestações
miraculosas, extraordinárias. A manifestação, embora quase
indescritível, é descrita da forma como foi experimentada e vivenciada. Assim
Deus se comunica, assim Ele age para vir ao encontro de seu povo, a fim
de ajudá-lo. Na revelação no monte Sinai, Moisés recebeu a lei e os mandamentos
para que servissem de orientação para o povo da aliança. E, como
não poderia deixar de ser, também são ressaltadas com ênfase a
grandiosidade, a majestade e a extraordinária beleza desse Deus único, que
exige exclusividade: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito,
da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Gn 20.2s.).
Ao descer do monte, Moisés repassou e ensinou o que havia recebido. Ele
testemunha a respeito da vontade e do projeto de Deus.
Esse testemunho é transmitido por Tiago e João quando regressaram
da experiência extraordinária, miraculosa que presenciaram “no alto de um
monte” (Mt 17.1): Jesus, o filho de José e Maria, é o Messias, é o Filho de
Deus, é o Emanuel, o Deus-conosco! “A ele ouvi” (17.5) é ressaltado de forma
enfática. Os discípulos, pois, não foram presenteados com uma visão ou com
uma experiência fantástica em suas vidas, mas lhes foi afiançado: “Este é o
meu Filho amado, a ele ouvi”. Ele anuncia a vinda do reino de Deus e aponta
para a nova aliança que Deus quer fazer com seu povo. Ele lança as bases
dessa nova aliança e chama para o discipulado. Chama para o discipulado e
aponta para a cruz, pois este é o caminho.
“O escândalo da cruz era uma pedra de tropeço muito grande para a
evangelização dos judeus (cf. 1 Co 1.23). Como fazer com que acreditassem
que um homem, condenado por dois tribunais e morto escandalosamente numa
cruz, fosse aceito como Messias? Só mesmo podendo provar que o sofrimento
e a cruz entravam no plano de Deus, descrito no Antigo Testamento. A transfiguração
respondia a esse problema e fazia ver que, conforme o Antigo Testamento,
a cruz era o caminho do Messias para a glória... A narração confirmava
a autoridade de Jesus Cristo: Ele era lei e norma para o cristão: Escutai-o!”
(Carlos Mesters, em Deus, onde estás?. Editora Vega, 1974, p. 184).
O relato da transfiguração procura, pois, clarear a verdade a respeito
desse Jesus: ele, filho de José e Maria, é o Filho de Deus, o Messias. “Há nele
um escândalo que não foi eliminado pela Páscoa e que persiste até hoje,
também na igreja cristã. Consiste no que o apóstolo Paulo chamou de ‘tolice
da palavra da cruz’ (1 Co 1.18s.). Uns enxergam nele um segundo João Batista,
outros a reaparição de Elias, outros ainda crêem na volta de um grande
profeta. O juízo do povo, pois, revela estima e alto grau de apreço. Mas ele
fica claramente aquém do limiar da fé” (G.Brakemeier, em O ser humano em
busca de identidade. Editora Sinodal e Paulus, 2002, p. 29).
Assim como Deus outrora se revelou a Moisés, agora ele se revela em
Jesus, ou seja, Jesus revela o mesmo Deus que se revelou ao povo de Israel
como Deus libertador e salvador. Disso os discípulos são testemunhas, disso
os discípulos dão testemunho em todos os tempos e lugares. Sim, esse mesmo
que toma o caminho da cruz.
4 A caminho da prédica
Um comentário de Jörg Zink (Die Urkraft des Heiligen. Christlicher
Glaube im 21. Jahrhundert. Stuttgart, 2003): “O que distingue a fé cristã de
todas as demais formas de piedade humana não é nada além de uma simples
e mera figura da história. É a pessoa do homem simples de Nazaré, e
ninguém mais, e o que ele disse com palavras simples para as pessoas pobres
e exploradas da Galiléia. Ele sempre ficará um pouco distante. Nós não
temos nenhuma frase escrita por ele, nenhuma descrição de sua aparência
ou de seu caráter. Nós não sabemos de nenhuma palavra dele que nos foi
transmitida, se ele realmente a disse. O que nós temos são apenas confissões
(testemunhos) de pessoas que conviveram com ele ou que dele ouviram. Eles
relatam o que esse Jesus operou neles, o que ele mudou neles, o que deles
resultou após o encontro com ele”.
O que Deus fez com seu povo da primeira aliança, o que Deus fez e
continua fazendo com seu povo da segunda aliança, na qual nos incluiu por
sua graça e bondade, até pode ser uma afirmação que vale para toda a mensagem
bíblica, mas com certeza é o tema do nosso texto em estudo.
“Quando dizemos o que cremos, nós estamos dando um testemunho
de nossa fé. No Antigo Testamento, o povo de Deus experimentou, por diversas vezes, que Deus é fiel e não abandona as pessoas que o temem. A saída
da escravidão no Egito foi o sinal mais forte da presença de e da força de
Deus. Também a proteção no deserto foi muito importante. Durante todo esse
tempo, os israelitas tiveram contato com outros povos, que acreditavam em
outros deuses. A partir daí surgiu a pergunta: Será que nosso Deus é igual
aos deuses dos outros povos? Para falar de sua fé, o mais importante não era
dizer como Deus era, mas o que Deus fez e faz em seu favor” (Passos na Fé,
Ensino Confirmatório, 2º ano, fascículo 6, Editora Sinodal, 2001, p. 4).
A prédica abordará o que Deus fez:
– revelou-se a Moisés, incumbindo-o de ensinar ao povo as suas leis e
seus mandamentos;
– revelou-se em Jesus Cristo, frisando “a ele ouvi!”;
– os discípulos revelam, através de seu testemunho, “o que viram e
ouviram”.
5 Subsídios litúrgicos
Versículo de acolhida:
“Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu,
hoje, te gerei” (Sl 2.7). “Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o
seu santo monte, porque santo é o Senhor, nosso Deus” (Sl 99.9).
Kyrie:
No mundo há muito sofrimento e dor causados por falsos deuses. Por
todas as pessoas que sofrem sob a tirania e a opressão de falsos deuses queremos
clamar ao Deus libertador: “Tem, Senhor, piedade”.
Glória:
Em Jesus Cristo Deus mostrou ao mundo a sua proximidade; mostrou
que acompanha e serve aos seus, oferecendo-lhes perdão, dignidade, vida.
Por isso vamos louvar esse grandioso e glorioso Deus, cantando alegremente:
“Glória”.
Confissão:
Misericordioso Deus, nosso único Senhor. Chegamos diante de ti para
te confessar que somos como teu povo de outros tempos, pois também nós
somos um povo de “dura cerviz”, um povo teimoso e desobediente. Mas tu
vens e revelas o teu projeto. Tu vens para nos ajudar. Tu queres nos guiar por
teus caminhos, caminhos de vida, de amor e de solidariedade. Entregaste a
nós os teus mandamentos. Nós não os cumprimos. Eles justamente nos revelam
a nossa fraqueza. Perdão, Senhor, que não te amamos acima de tudo e
em primeiro lugar. Perdão, Senhor, por termos sido preguiçosos e até omissos
na prática do amor ao nosso próximo. Seja bondoso conosco mais uma vez e,
em nome de Jesus Cristo, pedimos por teu perdão. Amém.
Oração de coleta:
Amado e bondoso Deus. Tu és fiel e não abandonas o teu propósito de
caminhar com o teu povo. Obrigado que tu vens a nós, animando-nos para a
vida de fé, fortalecendo-nos para toda a boa obra. Que a tua santa Palavra
nos oriente para nosso testemunho claro e corajoso. Em nome de Jesus Cristo,
teu Filho, nosso Senhor e Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito
Santo para todo o sempre. Amém.