Proclamar Libertaçao - Auxílios para o anúncio do Evangelho.
É uma coleçao que vem desde 1976, como fruto de um trabalho de mutirao, do qual participa muita gente do Brasil e da América Latina. O trabalho exegético, a reflexao, os subsídios litúrgicos, sao contribuiçoes para a preparaçao do culto, dos estudos bíblicos e de outras celebraçoes na vida comunitária.
Editado pela da
NÚMEROS 6.22-27 -
LUCAS 2.15-21
FILIPENSES 2.5-11 Werner Fuchs
Jesus deu a volta por baixo – e vocês?
1 Concretude
O período da Quaresma remete-nos ao chão da realidade: superrapinagem
e corrupção, desemprego e ignorância, celebridades artificiais e
rompimentos conjugais, violência sexual e exploração infantil, degradação
ambiental e balas perdidas, escravos em fazendas de gado e carvoarias do
século XXI. Não permite escapar para a superficialidade, ensejada pelo carnaval,
pelas veleidades da propaganda e pelo comodismo. Não tolera a pregação
alegórica, tão monotonamente freqüente, sempre conservadora (cf.
J. Jeremias, p. 9s.) e aviltantemente fechada para o inusitado de Deus nas
cruzes e encruzilhadas da vida (cf. At 14.22). Não negligencia a omissão da
igreja, não é indiferente à indiferença dos cristãos e não aceita reinar no
etéreo enquanto o reino é térreo. O caminho da cruz não pode ignorar as
cruzes do caminho.
2 Inquietude
O contexto de Filipenses 2 é de “exortação em Cristo” e “consolação de
amor” (v. 1). Trata dos relacionamentos, da unidade, ou melhor, da unanimidade
(v. 2), tão ameaçada por discórdia e egoísmo. A trajetória de Cristo gera
fatos e afetos. No entanto, são fatos e afetos reversos: humanamente buscamos
o divino, Deus busca o humano. Diante das agruras da vida tentamos“dar a volta por cima”. Diante do “privilégio” do divino Cristo “dá a volta por
baixo”. Para vencer, humanos sacrificam o amor. Negando-se a derrotar, Cristo
faz acontecer o amor. Esvazia-se, despoja-se, mas não se anula. Gera vida.
Desconsiderar “aquilo que havia em Cristo” (v. 5) põe em risco ser humano
e ser igreja. “Agarramos, dilapidamos e usufruímos nossa vida e nossa
sorte realmente como ‘roubo’ [v. 6]... Paulo conhecia bem o sedutor que havia
tentado os humanos no paraíso com o ‘ser igual a Deus’... Para ele (o Filho),
ser igual a Deus é puro presente de amor” (de Boor, p. 207).
“Forma de escravo” e “obediente” (v. 7 e 8): por nossa natureza egoísta,
olhamos apenas para o que Cristo pode render para nós, esquecendo que ele
devotava seu amor primeiramente ao Pai e à causa dele.
“Reconhecido em estatura como humano” (v. 7): a compreensão disso
passa pelo recurso a figuras. Por exemplo, “imaginando um pai que, ao lidar
com o filho, ‘existindo na qualidade de adulto, se esvazia e assume o modo
de ser de uma criança’... A verdadeira divindade de Jesus é justamente despir-se de toda a ‘divindade’ e escolher a figura de escravo. É justamente disso
que é capaz somente quem é participante do poder criador de Deus” (de
Boor, p. 209). Que fragilidade inquietante!
“Morte de cruz” (v. 8): é morte sem Deus, morte de um maldito, é rendição
ao inimigo (1 Co 15.26). Um morrer que demandou aprendizado (Hb 5.8).
Desobedecer seria pecar. Ignorar o Pai seria insolência máxima: tudo é meu!
Porém, não se agarrando a nada, Jesus restabelece a honra do Pai,
espezinhada pelos humanos no afã de honra ignóbil. Por isso Deus o “elevou
à altura máxima” (v. 9).
“Nome acima de todo nome”: não lhe foi acrescentado mais um título.
“Jesus”, o nome de sempre, passou a ser o nome para sempre. Diante dele se
dobrará todo joelho (cf. Is 45.23), de celestiais, terrenos e subterrâneos. “Tudo
o que Deus fez, faz e fará como ‘Javé’, o Deus da aliança, aquele que instituiu
a comunhão com os humanos, tudo isso foi entregue a Jesus! Agora todos o
descobrem e reconhecem: todo o amor de Deus aos seres humanos, toda a
graça que Deus jamais demonstrou, toda indulgência, toda paciência com
um mundo pecador – tudo repousa exclusivamente em Jesus, no esvaziamento,
serviço e obediência de Jesus, e aconteceu unicamente por causa
dele” (de Boor, p. 213s.). Isso também significa que Deus não permitirá que
seja prejudicado ninguém que se esvaziar, obedecer e servir.
3 Atitude
No mesmo bairro vivem duas mulheres. Ambas sofrem com as farras e
traições dos maridos. A primeira, quando ele retorna das noitadas, abre a
porta. Não diz nada. Não faz exigências. Não briga. Faz de conta que está
tudo bem. Lava a roupa suja dele. Ensina as crianças a respeitá-lo, ainda que
embriagado. Diz: Como cristã tenho de perdoá-lo. A segunda, quando ele
bate à porta de madrugada, nega-se a abrir. Ele suplica: Querida, prometo
que vou mudar. Não beberei mais. Ela responde: Prove primeiro que você
está arrependido e mudou de vida. Então deixa-o dormir na calçada e vagar
pelas ruas.
Qual delas está certa? Com qual simpatizamos mais? A primeira ou a
segunda? (Nas pregações realizadas, a maioria simpatizou com a segunda, a
durona.) A resposta é complexa: Ambas estão erradas e ambas estão certas.
Erradas: A primeira se sacrifica em favor de um relacionamento inautêntico,
a segunda sacrifica o relacionamento em favor de uma vida inautêntica. A primeira anula a si mesma, a segunda anula, ou suspende, o relacionamento.
Certas: A primeira se dispõe a perdoar, uma sinalização de que qualquer
pecador precisa para ter força para mudar. A segunda exige mudança, algo a
que qualquer pessoa que busca sinceramente o perdão precisa se dispor.
4 Amplitude
Como se relacionar em uma igreja fossilizada, que não arrisca mais
nada com Deus, que já se rendeu ao “programismo” sem fim e sem finalidade
e que se nega a desmascarar falsos poderes em nome do poder de Jesus?
Como pregar reconciliação quando todos acham melhor ser “politicamente
correto” (em todas as linhas teológicas), posando de vítimas para não admitir
culpa? Como se esvaziar sem abrir mão da dignidade e ainda gerar um
relacionamento positivo? Como traduzir essa “conformidade” com Jesus (Rm
8.29), como ter o “mesmo sentimento” dele (v. 5)? Primeiramente: não dobrando
os joelhos a nenhum outro exceto para Jesus.
“Jesus é único...” E ele se identifica conosco. “E nós somos únicos também,
criados e planejados a ser criaturas e criadores ao lado de seu domínio,
fiéis à intenção última de Deus” (Bakken, p. 219). Ou seja, precisamos conhecêlo
bem. Ele, sendo rico, fez-se pobre, para nos tornar ricos (2 Co 8.9). Ele nos
concederá ser livres de nosso eu, bem como criativos para arriscar e encontrar
formas de relacionamento que confiem no inusitado de Deus, preservem
a dignidade pessoal e apostem alegremente no engajamento das partes. Quem
não dobra os joelhos para ele não sabe o que está perdendo e faz parte de um
grupo em extinção: “Para que toda língua confesse...”.
“No hino, o foco não é o indivíduo devoto, nem mesmo a igreja cristã,
mas o evento de revelação de amplitude mundial. Deus e mundo são os poderes
que determinam a cadência do salmo” (Käsemann, p. 55). Rompe-se o
estreitamento eclesiástico. O alcance é universal, o horizonte amplo. Os
fatos e afetos são realidade palpável para todos. Assim, o inusitado não se
torna excêntrico. Emerge a doxologia, a exaltação cabal (cf. os pastores no
campo, Lc 2.15-21), e derrama-se bênção em profusão (Nm 6.22-27). Não aos
demais insignificantes poderes e senhores: um só Senhor, Jesus Cristo!
Bibliografia
BAKKEN, N. K. Auxílio homilético sobre Fp 2.5-11. In: MALSCHITZKY, H. e
WEGNER, U. Proclamar Libertação, v. XI. S. Leopoldo: Sinodal, 1985.
p. 216-220.
DE BOOR, W. Cartas aos Efésios, Filipenses e Colossenses. Comentário Esperança.
Curitiba: Esperança, 2006. p. 206s.
JEREMIAS, J. As Parábolas de Jesus. 5. ed. S. Paulo: Paulus, 1986.
KÄSEMANN, E. Kritische Analyse von Phil. 2,5-11. In: idem, Exegetische
Versuche und Besinnungen, v. I. 4.ed. Göttingen, 1965. p. 51-95.