Proclamar Libertaçao -
Auxílios para o anúncio do Evangelho.
É uma coleçao que vem desde 1976, como fruto de um trabalho de mutirao, do qual participa muita gente do Brasil e da América Latina. O trabalho exegético, a reflexao, os subsídios litúrgicos, sao contribuiçoes para a preparaçao do culto, dos estudos bíblicos e de outras celebraçoes na vida comunitária.
Editado pela da
ISAÍAS 9.2-7 -
TITO 2.11-14
LUCAS 2.1-14 (15-20) Martin Volkmann
1 Considerações à guisa de introdução
Escrevo esta reflexão para o Natal num período “pouco natalino”. Ao
invés do calor, que normalmente marca o final de dezembro, é o período frio– ao menos no sul do Brasil. Ao invés de músicas natalinas e propagandas
para presentes de Natal, os comerciais convidam para presentear namorados.
Mesmo nessa aparente contradição – na realidade, seria o período certo,
pois corresponde à época em que, no hemisfério norte, está situado o Natal:
dias curtos, noites frias e longas. Nessa situação faz sentido o anúncio: Em
meio às trevas resplandece a luz, como inicia a leitura bíblica do profeta
Isaías (9.2). É o que, nessa época de festas juninas, se expressa com as fogueiras.
Na realidade, portanto, é um pouco natalino, mas um Natal menos
europeu, mais sulino. Será que isso também não poderia ajudar em nossos
festejos natalinos em dezembro?
Outro aspecto é a conjuntura do momento. Os anjos anunciam: “Paz
na terra entre as pessoas a quem Deus quer bem”. E o profeta fala de uma
grande luz que brilha no horizonte para o povo que anda pelo vale das trevas.
A ênfase dos textos bíblicos, sem dúvida alguma, recai sobre a nova situação
que o agir de Deus provoca. Mas a conjuntura do momento parece hoje ser
muito mais de trevas, de falta de paz: as “botas dos guerreiros” (Is 9.5) continuam
pisando firme no Iraque e em outras regiões. Botas de outro tipo de
guerreiros assolam as grandes cidades com violência, seqüestros, assaltos
que criam uma sensação de insegurança total. E a situação pessoal de muitas
pessoas continua marcada pela dor e pela falta de esperança: desemprego, miséria, ausência de perspectiva de vida. O mundo em geral e a situação
pessoal parecem corresponder pouco ao conteúdo da mensagem dos textos
bíblicos. Será diferente em dezembro?
2 Considerações exegéticas
A perícope indicada como texto de prédica sugere apenas os v. 1-14,
deixando como opção incluir os v. 15-20. Na realidade, Lucas 2.1-20 forma
uma unidade, o que dá para perceber claramente nas introduções com indicações
cronológicas em 2.1 e em 2.21. Além disso, o conjunto 2.1-20 compõe
se de três partes, sendo que nas duas últimas se trata dos mesmos personagens,
ou seja, dos pastores: a) nascimento do menino (v. 1-7); b) anunciação
aos pastores (v. 8-14); c) comprovação e testemunho dos pastores (v. 15-20).
Esses pastores são, de certa forma, os primeiros a fazer uma pregação de
Natal para as pessoas diretamente envolvidas no evento. Assim, sugiro usar
todo o conjunto como texto de prédica.
A introdução com menção do edito de César Augusto e datação do
referido censo é característica de Lucas (cf. 1.5-7). No entanto, os dados não
conferem exatamente, tanto no que se refere a Cirênio como governador da
Síria quanto à realização de um censo “em toda a ecumene” naquele período.
Isso não tem tanta relevância, porque o evangelista não está interessado
em trazer a história de recenseamentos para a fixação dos impostos na Palestina
ou a cronologia dos governantes da região, mas ele quer testemunhar
como Deus fala e age em meio aos acontecimentos da história humana. O
que importa é mostrar que Deus não cai como um raio no meio da vida das
pessoas, mas age com elas e em favor delas em meio a eventos bem mundanos.
História profana e história da salvação se entrelaçam.
Com a dupla menção de Davi (v. 4) é dado destaque à descendência
davídica de José e, conseqüentemente, de Jesus. Assim, o texto se refere à
esperança messiânica em relação ao descendente de Davi (cf. Is 9.2-7). Com
isso o autor destaca, apesar das e em meio às múltiplas rupturas e frustrações
ao longo da história em relação aos governantes do povo, a fidelidade
de Deus à sua história com seu povo.
A descrição do nascimento do menino mostra as circunstâncias profundamente
humanas dessa criança: ela é enrolada em faixas e deitada numa
manjedoura. A hospedaria (katalyma) pode ser tanto um local de parada das
caravanas, onde num mesmo ambiente se abriga um grande número de pessoas,
como uma habitação construída acima de uma gruta, onde se abrigam
os animais. Na região de Belém, há diversas construções assim. Na gruta,
escavada nas pedras, há as manjedouras para o trato dos animais. Ali é colocada
a criança recém-nascida, porque na habitação acima não havia mais
lugar para eles. O texto não fala, como se costuma enfeitar a cena, de uma
procura desesperada e frustrada do casal por um espaço em alguma casa.
Portanto, em meio a circunstâncias bem humanas, longe de qualquer encenação
romântica, entre o dia-a-dia de gente pobre nasce essa criança. Na
contramão da história humana – governantes imperiais, recenseamento, fixação
de impostos –, Deus faz a sua história.
O anúncio do nascimento não é feito às lideranças religiosas, mas a
simples pastores de ovelhas. Pastores têm uma longa tradição na história do
povo de Deus: os patriarcas, Moisés, Davi, profetas procedem desse contexto.
Gente simples, que não se esquivara de acolher o desafio de Deus e que, por
isso, se tornara fundamental na história do povo. Assim, a predileção desses
pastores está na mesma linha da opção pela “humilde serva” (1.48). Ao mesmo tempo, eles fazem parte daquele ambiente em que essa criança nasceu.
De um lado, como vimos até aqui, o texto destaca as circunstâncias
profundamente humanas desse evento. Por outro lado, uma segunda camada,
permeando aqueles acontecimentos, destaca a intervenção de Deus. Aos
pastores aparece o anjo do Senhor, e a glória do Senhor (expressões típicas de
teofania) inunda todo o ambiente. Frente à reação natural de medo por parte
dos pastores, a intervenção divina é detalhada na fala do anjo: Num primeiro
momento, eliminando o medo – “não temais” é expressão típica que introduz
a ação de Deus junto à pessoa temerosa diante de sua presença ou ausência
(1.12s, 30; Êx 14.13; Is 10.24; 41.10; Mc 6.50). Num segundo momento, explicando
o que aconteceu: o acontecimento é euangelion – anúncio de boanova,
motivo de grande alegria para todo o povo. Na linguagem de Lucas,
esse povo é, em primeiro lugar, o povo de Israel. Mas, ao mesmo tempo, ele
vale para “todos os povos” (2.31; cf. também At 1.8).
Essa boa-nova consiste na caracterização dessa criança: Salvador, Cristo,
Senhor. São três termos; cada qual sozinho bastaria para destacar o caráter
extraordinário ligado a essa simples criança. Os três juntos só vêm reforçar
essa grandiosidade do agir de Deus nesse nascimento. Mas cada qual
enfatiza um aspecto. Salvador em sentido bíblico é sempre Deus ou o seu
enviado (cf. Jz 3.9, 15). Salvação é a expectativa do povo, expressa nos hinos
cantados por Maria e Zacarias: 1.47; 1.68s., 74-77. Agora – hoje – essa expectativa
está se cumprindo. O Salvador não é alguém qualquer; ele é o Messias
anunciado e esperado (Is 9.2-7). E esse Messias também é Kyrios – Senhor
divino (cf. At 2.36). Kyrios é o título grego para Deus. Portanto esse menino é
Senhor divino. Com a ênfase no hoje e nesses três títulos cristológicos, o
evangelista destaca que o momento escatológico da história salvífica da humanidade
tornou-se presente e real em meio à história humana.
Tão extraordinário evento, perceptível apenas aos olhos da fé, conforme
comprovam esses pastores que vão para o local indicado e encontram
tudo como anunciado e voltam “glorificando e louvando a Deus” (v. 20) – tão
extraordinário evento é exaltado por quem convive com a realidade divina: a
multidão de anjos junta-se ao mensageiro e entoa o cântico de louvor (v. 14).
Assim, novamente transparece o que perpassa todo o texto: a realidade divina
inunda a vida terrena; em meio a este mundo, nos acontecimentos históricos
normais, Deus se faz presente. Por isso o cântico dos anjos aponta, num
primeiro momento, para o mundo celestial, dando-lhe o devido valor: “glória
a Deus nas maiores alturas”. E, num segundo momento, volta-se para a realidade
humana e destaca a conseqüência desse agir de Deus: “Paz na terra
entre as pessoas a quem ele quer bem”. Paz – não é a simples ausência de
guerras, conflitos e desavenças entre pessoas e nações. Paz é o “shalom” de
Deus, a paz definitiva que Deus oferece – para pessoas individualmente e
para grupos e nações (cf. Is 9.6).
A reação dos pastores é sinal de que compreenderam a dimensão extraordinária
daquilo que presenciaram. Sua atitude é o que Paulo designa fé:
eles creram no anúncio divino. São os primeiros representantes daqueles “a
quem Deus quer bem”. Eles se põem em movimento (cf. 1.39; 19.5s.) e vão
verificar o que lhes fora anunciado. Não é nada de extraordinário – uma simples
criança recém-nascida, envolta em fraldas, deitada numa manjedoura.
Mas a percepção, a confiança, o reconhecimento da presença de Deus junto
a eles na palavra do anjo leva-os ao local e a encontrar tudo como lhes fora
anunciado (v. 16). E como ouvintes do anúncio eles passam a ser anunciadores
da palavra ouvida – v. 17. Chama atenção a quantidade de palavras que se
referem a ver/falar/ouvir nesse trecho: v. 15 – falar/palavra/dizer; v. 17 – ver/
palavra/dizer; v. 18 – ouvir/dizer; v. 19 – palavras; v. 20 – ouvir/dizer. Portanto
a mensagem do anjo passa a ser divulgada, anunciada pelos pastores e ouvida
por um novo grupo de pessoas.
Assim como no anúncio do anjo a cena desemboca no louvor da multidão
de anjos, da mesma forma esses pastores, que compreenderam a intervenção
divina em suas vidas e na história de toda a humanidade, também só
podem voltar para a sua realidade “glorificando e louvando a Deus” pelo que
viram e ouviram. À ação divina corresponde o louvor humano, daqueles que
viram e ouviram o que Deus fez.
3 Considerações com vistas à pregação
O que dizer de novo no Natal? Quem não conhece essa história de
Natal? Bastaria lê-la e deixar que ela fale por si. E certamente o faz. Pois,
quem sabe, justamente por ser tão conhecida, ela é sempre tão bonita, tão
sublime, tão nova. Por ser boa-nova, evangelho.
A história fala-nos de pessoas normais, muito normais, como nós. Anormalé o que acontece com elas. Talvez aqui esteja um ponto a ser resgatado.
Pois toda aura que se criou em torno dessa história e dos personagens que a
compõem fez com que essas pessoas fossem elevadas a um nível tal que as
coloca muito distantes de nossa realidade. E com isso torna-se difícil mostrar
que o conteúdo desse relato diz respeito a pessoas bem concretas, como nós.
Os personagens desse relato são pessoas bem normais:
– um casal muito simples, gente do povo; ela grávida; ainda não casados
oficialmente;
– pastores de ovelhas, acampados ao relento, à noite, trabalho pesado;
– o povo exposto aos desmandos e à exploração dos detentores do poder:
recenseamento para determinar o valor dos impostos;
– acontecimento bem situado no tempo e no espaço: César Augusto,
Cirineu, Nazaré, Belém.
Ao mesmo tempo, o relato apresenta-nos as circunstâncias adversas
no desenrolar dos fatos:
– viagem relativamente longa e sob condições impróprias: estágio final
de gravidez;
– único lugar para se abrigar – numa hospedaria junto com os animais;
– parto em condições precárias: sem conforto, recém-nascido colocado
no local para alimentar os animais.
Portanto o que aconteceu naqueles dias envolveu circunstâncias muito
reais. Não temos hoje as mesmas situações em nossos ambientes?
Por outro lado, na contramão da história que os poderosos da época
planejam e fazem, Deus faz a sua história. Ele intervém justamente na vida
dessas pessoas simples, concretas – como nós.
– O mensageiro de Deus irrompe na vida dessas pessoas.
– Ele tem um anúncio todo especial – boa-nova/evangelho: nasceu o
Salvador, o Cristo, o Senhor.
– Conseqüência: paz na terra.
– Motivo de alegria para todo o povo, ou seja, para todas as pessoas –
como nós – “a quem Deus quer bem”.
Isto é Natal: em meio ao mundo normal, tão humano, tão dentro da
rotina e das coordenadas estabelecidas pelas regras humanas, ali Deus intervém.
Milagrosamente, mas de forma tão humana, numa criança recémnascida.
O que pregar nesse dia? Sem menosprezar ou denegrir toda a magia
que envolve o Natal – luzes, festa, comércio, presentes –, a pregação deveria
apontar para essa intervenção divina que nos atinge bem lá onde nós estamos
e como somos. A pregação deveria ajudar as pessoas a que elas conseguissem
ver atrás, além, em meio, apesar de tudo o que é feito do Natal, aquilo
que em última análise importa: a realidade divina invadindo a nossa realidade; a história da salvação divina entrando em nossa história humana. Assim
como aqueles pastores compreenderam o sinal – uma criança recém-nascida–, que, em última análise, não era sinal algum, mas que os olhos da fé
aceitaram como o Deus presente.
Bibliografia
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Berlim: Evangelische
Verlagsanstalt, s/a. Theologischer Handkommentar zum Neuen
Testament, v. 3.
SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. Göttingen/Zurique:
Vandenhoeck & Ruprecht, 1986. Das Neue Testament Deutsch, v. 3.