PROCLAMAR LIBERTACAO
Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/ Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia da Escola Superior de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
SALMO 98 -
TITO 3.4-7 LUCAS 2.1-20
Rodolfo Gaede Neto
1
Informações de apoio
1 – Lucas, ao situar o nascimento de Jesus no contexto do recenseamento,
promovido pelo imperador César Augusto, está emitindo a
mensagem de que o Natal é uma ação de Deus para dentro da história
do mundo. A preocupação do evangelista com a datação dos fatos aponta
para o aspecto teológico da historicidade da salvação.
2 – O termo “boa nova” ou euangélion (como está no texto grego)
não tem a sua origem na língua dos anjos, que anunciaram o nascimento
de Jesus aos pastores. Era expressão típica usada para anunciar
as ordens e as notícias do palácio do Império Romano. Por exemplo,
os aniversários de nascimento e de ascensão ao trono de César
Augusto eram evangelho. Este evangelho deveria ser de grande alegria
para todo o povo do império. Evangelizar significava fazer o povo
conhecer os principais acontecimentos da vida do imperador.
3 – Os termos “salvador” e “senhor” (soter e kyrios) igualmente
eram de uso comum no Império Romano. Eram aplicados aos deuses,
mas também à pessoa de César Augusto. Uma inscrição grega da época
exalta esse imperador, porque com o seu nascimento começou uma nova
era e porque ele foi capaz de dar um novo sentido ao mundo: o recém nascido
era portador de dons de salvação da humanidade; o destino o
enviou para se tornar o redentor do povo, inclusive de todas as gerações
futuras; Augusto é o salvador. Por isso, o evangelho da sua proclamação
como rei é motivo de alegria para todo o império (cf. Inscrição de Priene,Ásia Menor, in: O Evangelho da Libertação segundo Lucas).
4 – Lucas estava muito bem informado sobre os detalhes da vida
política do Império Romano de sua época. Isto fica evidente quando
ele, na narrativa de Natal, lança mão de expressões típicas do dia-adia
do palácio, de conceitos carregados de sentido ideológico.
5 – O redator Lucas, ao construir a narrativa de Natal, faz consciente
e cuidadosamente uma montagem de expressões e sentidos, de modo
a contrapor a ação de Deus no Natal à ação do imperador romano. Se o
nascimento de Augusto era considerado evangelho, Lucas diz que o verdadeiro
evangelho é aquele proclamado pelo mensageiro dos céus, pelo
anjo do Senhor, acerca do nascimento de Jesus (v. 10). Se Augusto era
considerado o iniciador de uma nova era, Lucas proclama que os novos
tempos iniciaram quando, com o nascimento de Jesus, o céu se abriu
para a terra (v. 9). Se Augusto é proclamado senhor do mundo (o seu
império abrangia todo o mundo conhecido da época; Jesus nasceu quando
o poder de Augusto alcançava toda a terra habitada), Lucas testemunha
que o senhorio sobre o mundo pertence unicamente a Deus; sinal
disso é que mesmo César, com todo o seu poder, através de seu decreto
que obriga José e Maria a irem para Belém, sem o saber e sem querer,
está a serviço das ações de Deus. Se Augusto é proclamado salvador da
humanidade, Lucas anuncia que só Deus, através de Cristo, pode dar a
verdadeira salvação (o evangelista conta a história do Natal desde aótica de quem conhece a história da cruz e da ressurreição). Se, conforme
César, todo o povo do império deve ser evangelizado com os acontecimentos
do palácio de Roma, de acordo com Lucas a evangelização realizada
pelo anjo do Senhor desconhece qualquer restrição: destina-se
não a um grupo específico ou a um povo selecionado, mas a toda a
oikumene (v. 10), tendo, portanto, um caráter universal.
Portanto, com a construção do texto de Natal, Lucas tem em vista
o desmascaramento das pretensões de César de ser senhor e salvador
do mundo. O evangelista desnuda a ideologia que se esconde atrás do
conceito palaciano “evangelho”. Da mesma forma, ao reivindicar o título“Salvador” para o Messias, Lucas purifica este termo da ideologia de
dominação. A história de Natal, segundo a teologia de Lucas, relativiza
o poder de César.
6 – O recenseamento decretado por César Augusto representava
um claro sinal de dominação do império sobre a população. A Bíblia
conhece, desde os tempos de Davi, as implicações perigosas que pode
ter uma contagem do povo (cf. 2 Sm 24; 1 Cr 21; Nm 1 e 26). O povo
pertence a Deus e não ao rei. O censo era um meio pelo qual o imperador
podia exercer o controle sobre todos os indivíduos e deles dispor
para fins militares e tributários. Na época de Augusto, a carga de impostos
alcançara níveis nunca vistos: o correspondente a 180 dias anuais
de trabalho, ou seja, a metade da renda dos trabalhadores. Esta
realidade levara muita gente a fugir das áreas de controle do império.
Nas montanhas, grupos de rebelados se organizavam contra Roma, a
exemplo dos zelotes (cujo movimento pode ter tido o seu início por
ocasião de um censo). De lá desciam em bandos para praticar assaltos
(provavelmente é a este tipo de assaltantes que Jesus se refere na
parábola do Bom Samaritano). São considerados ladrões (Barrabás e
os dois homens crucificados com Jesus faziam parte desses grupos de
ladrões, salteadores e rebeldes). A notícia do recenseamento havia
reacendido a chama da revolta. Como forma de resistência contra a
opressão, muitos se negavam a se alistar.
Diante desse quadro, cai em vista que Lucas apresenta José e Maria
como casal obediente às ordens do alistamento. Isto parece um dado
constrangedor. Pode sugerir que os pais do Messias estão alheios, indiferentes
a todo sentido político e ideológico desse censo. O que Lucas
quer sinalizar? Possivelmente quer esclarecer à sua comunidade duas
coisas ao mesmo tempo:
a – Constatar que José e Maria não provêm dentre os rebeldes
equivale a dizer que o projeto do Messias não se confunde com o movimento
de um determinado grupo (tenha ele motivações políticas, ideológicas
ou religiosas). Em outras palavras: o projeto do Messias não se
esgota no projeto de uma facção, por mais justas que sejam suas reivindicações. Está acima de movimentos ocasionais e circunstanciais.
Estar acima não significa anular. Significa que nesse projeto inclusive
pode haver espaço para as justas reivindicações de movimentos ocasionais
e circunstanciais. Sinal disso é que do círculo de discípulos do
Messias veio a fazer parte um zelote e que uma das acusações feitas a
Jesus no seu julgamento perante Pilatos foi exatamente estar “vedando
pagar tributo a César” (Lc 23.2). A malícia do jogo das autoridades
constituídas era enquadrá-lo numa facção como forma de redução de
seu projeto messiânico.
b – Sabiamente Lucas quer dizer também que o projeto do Messias
não se coloca no nível da concorrência com o projeto de dominação
de César, como se, através da rebelião, pudesse vir a tomar o trono
do palácio de Roma. As ações de Deus através do Messias estão acima
de tudo isso. Mais do que estar acima dos movimentos rebeldes no
interior do império, o Messias está acima do próprio império, com César
e com toda a sua política de dominação. O Messias veio para ser Senhor
e Salvador, inclusive de César. Com isto, Lucas esclarece que a
obediência de José e Maria às ordens do imperador nada tem a ver
com alienação em relação à opressão, mas tem a ver com a profunda
consciência do casal de que se encontra a serviço daquele diante do
qual todo joelho se dobrará, nos céus, na terra e debaixo da terra, e que
por toda língua será confessado como Senhor (cf. Fp 2.9s).
7 – Sobre a inclusão da lenda dos pastores na história de Natal, é
oportuno lembrar que na literatura rabínica os pastores aparecem como
categoria constante e severamente criticada. Fariseus e sacerdotes olham
para esse grupo com desprezo. Os pastores fazem parte do “povo da
terra” (am ha’ arez). Por causa de sua simplicidade e ignorância, são
tidos como pessoas sem condições de cumprir satisfatoriamente a lei.
Estão excluídos do mundo vindouro. Considerados ladrões e enganadores, são identificados com os cobradores de impostos e pecadores. Uma
expressão rabínica diz: “Nenhuma profissão no mundo é tão desprezível
quanto a dos pastores”. Nos tribunais não são aceitos como testemunhas.
Diante desse conceito carregado tão negativamente, surpreende
que Lucas privilegia os pastores como primeiro grupo a tomar conhecimento
do grande feito de Deus no Natal. A Boa Nova de grande alegria
chega primeiro a eles, e dela eles se tornam os primeiros portadores.
Como pessoas excluídas da religião, tornam-se os primeiros missionários
do Evangelho de Cristo. Como pessoas excluídas do direito de testemunhar
a verdade nos tribunais, tornam-se testemunhas da maior
verdade de Deus. Como pessoas ignorantes, tornam-se portadores do
maior conhecimento existente no céu e na terra. Com isto, Lucas certamente
quer apontar para o caráter do governo messiânico, que não se
pautará pela escolha dos “sábios segundo a carne, nem dos poderosos,
nem dos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as cousas
loucas do mundo..., as fracas..., as humildes..., as desprezadas, e aquelas
que não são” (1 Co 1.26-29).
8 – Segundo a tradição, a aparição do Messias deveria acontecer
de forma claramente visível. Sinais inconfundíveis indicariam a sua
chegada: demonstração de poder e glória, coroação e entrada triunfal
no palácio. Com a autoridade de quem lê o Natal a partir da cruz, Lucas
desmistifica esse tipo de expectativa. Em sua narrativa, os anjos apresentam
os sinais que verdadeiramente identificam o Messias: os panos
que envolvem a criança recém-nascida e o cocho dos animais que a
abriga. É incrível que estes sejam os sinais indicadores do grande mistério
de Deus. O que podem indicar as fraldas e o cocho? Podem, de
acordo com a teologia de Lucas, apontar para o mesmo mistério que se
oculta na cruz: a revelação de Deus sub contrario.
9 – Nazaré e Belém também fazem parte da cuidadosa elaboração
teológica de Lucas. Nazaré fica a 525m e Belém a 777m de altitude em
relação ao nível do mar. A distância entre as duas cidades é de 170 km;
para percorrer esta distância, na época, gastavam-se em torno de cinco
dias. Acontece que, em termos de investigação histórica da narrativa
de Natal, os dados a respeito da cidade de Nazaré, como local de
residência de José e Maria, podem ser considerados consistentes; enquanto
isso, a referência a Belém não se pauta pela preocupação histórica,
mas pela tradição de ser ela a cidade em que deveria ocorrer o
aparecimento do Messias (cf. Mq 5.2). Por isso se faz a seguinte comparação:
Nazaré está para a cruz (dado histórico), assim como Belém
está para a ressurreição (dado teológico). Portanto, ao narrar que o
decreto de César Augusto levou José e Maria a Belém, Lucas está dizendo
que a criança que ali nasceu – nas condições em que nasceu –
não é outro senão o Messias prometido e que esta constatação dispensa
comprovação histórica, assim como a ressurreição.
10 – A primeira prédica de Natal é a dos anjos. Eles evangelizam
os pastores. Os evangelizados divulgam a Boa Nova, que se destina ao
mundo todo. Quanto a isto, Lutero diz: “Os anjos não precisam de um
Salvador; os demônios não o querem. Por isso, ele veio por nossa causa;
nós é que precisamos dele” (Rienecker). O nascimento de nosso
Salvador é motivo de festa no céu. O céu está em festa por causa de
nossa salvação. Os pastores têm o privilégio de testemunhar essa festa
e ver um pedaço da glória de Deus. A glória de Deus é mostrada em
função da salvação do mundo. O mundo salvo participa dessa glória.
Entretanto, dada a realidade atual do mundo (o estábulo, os panos, o
cocho, a miséria de José e Maria, o desprezo dos pastores, a dominação
e a exploração do povo através dos impostos, a luta dos zelotes),
há um enorme contraste entre o céu e a terra. Este contraste quer ser
expresso também através da contraposição do brilho dos céus à escuridão
daquela noite de Natal. A narrativa de Lucas nos apresenta a realidade
do contraste e, ao mesmo tempo, apresenta o milagre do encontro
desses extremos. No Natal, Deus promove o encontro entre o céu e
a terra, entre a glória e a cruz. E anuncia que, através de Jesus, a contradição
entre essas duas realidades será superada. A paz que há nos
céus (cantada pelos anjos) será agora também a paz na terra (paz para
os pastores desprezados, para os explorados através dos impostos, para
os salteadores...). A glória que há nos céus será agora também a glória
dada aos seres humanos. Se na vida terrena Jesus viveu a crua realidade
dos desprezados (a cruz que o mundo dá), na ressurreição o Cristo
viveu a glória que Deus dá. Justamente na condição de ressurreto,
Cristo deixa para o mundo a paz que Deus dá (Lc 24.36). A paz e a
glória de Deus na terra são, agora, perspectivas reais. No entanto, enquanto
há cruz, não há espaço para uma “teologia da glória” barata.
Decisivo é sermos evangelizados com a notícia de que no Natal tem
início o processo pelo qual Deus constrói para nós, apesar de nós e
conosco a glória e a paz também na terra. A partir do Natal, a glória e a
paz na terra são o horizonte em direção ao qual podemos caminhar,
assim como Jesus de Nazaré caminhou, deixando pelo caminho as
marcas daquilo que esperava.
2
Meditação
Assim como Lucas, não podemos construir nenhuma reflexão teológica
sobre o Natal se não tomarmos como ponto de partida a cruz e a
ressurreição. Este é o porto seguro a partir do qual miramos para o
momento do advento do Messias. Tanto a cruz quanto a ressurreição
estão prefiguradas na narrativa de Natal. Mesmo que no Natal não
mencionemos esses eventos, que têm o seu lugar próprio no calendário
litúrgico, é necessário ter consciência de que eles constituem o alicerce
teológico da narrativa do Natal. No Natal, a cruz tem outro nome:
estábulo, cocho, panos, miséria, exploração através dos impostos; dominação
política, econômica, ideológica; desprezo, discriminação, escuridão.
A ressurreição também tem outro nome: brilho, glória, louvor,
paz, alegria. Assim como a Sexta-feira Santa contrasta com a Páscoa,
também o sofrimento do povo dominado por Augusto contrasta com a
festa nos céus por causa do nascimento de Jesus.
Mas não basta colocar essas realidades contraditórias uma ao lado
da outra, como se fossem dados estanques. Isto seria água no moinho do
dualismo platônico. É necessário dizer que, no Natal, a alegria “invade”
o campo de domínio da tristeza. A luz brilhante “se impõe” à escuridão
da noite. A humildade “mina” o feudo da arrogância. A paz “se infiltra”
no império da violência. O senhorio de Deus “solapa” o senhorio de César.
Naturalmente, todo esse movimento de “projeção para frente” da
alegria, da luz, da humildade, da paz e do senhorio de Deus não pode
ser anunciado de modo barato, transformando o Evangelho do Natal
num oba-oba, próprio de uma teologia da glória, que passa por cima da
cruz e subestima o poder da tristeza, da escuridão, da arrogância, da
violência e da prepotência imperial, poder este terrivelmente presente
na vida das pessoas que hoje ouvem a Boa Nova.
Temos que atentar para o fato de que, na teologia de Lucas, a
mensagem de Natal tem um forte cunho escatológico: ela aponta o horizonte
para quem está sem rumo; ela abre uma perspectiva concreta
para quem está sem perspectiva. Por isso, a comunidade pode fazer,
pela fé, o movimento de projeção para frente, em direção ao horizonte
onde estão a luz, a alegria, a paz, o senhorio de Deus...
Essa compreensão teológica nunca significa o deslocamento do
horizonte sempre para um futuro que nunca chega. Pelo contrário, significa
que também o futuro faz um movimento de “projeção”, só que“para trás”, criando sempre a iminência do encontro entre céu e terra.
Este movimento “para trás” é o que Deus realiza através da encarnação
de Jesus. Ele permite que a luz do céu deixe de existir apenas para o
céu e volte-se também para a terra, mergulhada na escuridão.
Assim, podemos dizer que a transcendência vem ao encontro da
história. O futuro ilumina o presente. O objeto da esperança “assalta”
aquele e aquela que esperam. A festa no céu contagia a terra, de modo
que interfere no humor dos que olham para o céu. O convite para o
banquete do Reino faz as pessoas convidadas viverem já no clima da
festa. Quem faz a experiência dos pastores, de contemplar a glória di
vina, não se recolhe, mas se enche de vitalidade e sai para testemunhá-la.
Quem ouve o coral dos anjos começa, aos poucos, a cantarolar o
mesmo canto e, quem sabe, até ensaiá-lo junto com outras pessoas.
Quem vê a paz no céu se acalma e experimenta que ela já pode ser a
paz na terra, embora de forma esmaecida. Enfim, no Natal, a Boa Nova
soa para dentro da história da humanidade e experimenta um tipo de“somatização” (ganha corpo). A historicidade da salvação é o que Lucas
quer anunciar no Natal.
E a historicidade da salvação significa, de fato, a luz presente na
noite da história. A noite da história é a realidade terrivelmente concreta
para tantas pessoas presentes no culto de Natal. Vivem a realidade
do “estábulo”, do “cocho”, dos “panos”, da discriminação, do desprezo,
da exploração tributária, da dominação imperialista, enfim, da
cruz dos tempos neoliberais. Se os panos e o cocho no estábulo são os
sinais que apontam para o mistério que Deus se põe a revelar no Natal,
então é necessário ficar atento aos sinais sub contrário pelos quais Deus
se revela hoje. De acordo com a lógica dessa teologia de Natal, Deus
pode ser encontrado justamente ali onde ele parece não estar: em meioà fraqueza. Esta é a notícia “bombástica” a ser proclamada no Natal. A
presença de Deus na escuridão significará sempre o iminente fim da
noite. Sua presença junto às vítimas do imperialismo significará sempre
a iminente “implosão” do império (não de cima para baixo, mas de
dentro para fora). Sua presença junto às pessoas enlutadas significará
sempre a iminente superação da dor da perda. Evangelizemos a comunidade
com esta Boa Nova.
3
Pregação
Orientações pedagógicas
O texto de Natal, além de seu conteúdo teológico, traz também
algumas orientações de ordem pedagógica. Penso que duas dessas orientações
podem nos ajudar.
a – Se a salvação se dá para dentro da história humana, é necessário
conhecer bem, a exemplo de Lucas, os detalhes da situação histórica
em que estão inseridos os ouvintes da pregação de Natal: qual é o
projeto ideológico-político que quer determinar os rumos da atual sociedade
humana? Assim como na época do primeiro Natal, hoje há
novamente a pretensão de dominação de “toda a terra habitada” através
do mercado globalizado, projeto este que vitima uma grande parte
da humanidade. Penso que a prédica de Natal não pode ter o tom de
um discurso político ou de análise da conjuntura socioeconômica (a de
Lucas não tem este tom). O mais importante é conhecer como o projeto
do César de hoje estoura nas costas dos membros da comunidade. Só
assim a Boa Nova poderá cair no chão do cotidiano da vida.
A evangelização do Natal quer alcançar as pessoas na escuridão da
noite em que estão vivendo. E isto significa, inclusive, mais que o sofrimento
no âmbito social. É necessário conhecer bem também a atual situação
histórica das famílias, das pessoas no nível individual, e evangelizálas
em suas longas noites de sofrimento (situação de luto, por exemplo).
Conhecer bem as ansiedades, angústias, dores e perguntas da
comunidade no atual momento histórico, este é o primeiro mandamento
dos pregadores e pregadoras.
b – Se o objetivo da pregação de Natal é evangelizar a comunidade,
importa “montar” cuidadosa e conscientemente (a exemplo de
Lucas) o jogo de expressões e sentidos no texto de nossa prédica, para
que ele esteja inteira, inteligente e criativamente a serviço da Boa Nova.
Sugestões de conteúdo
Praticamente, cada um dos dez pontos acima arrolados poderia ser
assunto ou ponto de partida para uma prédica. Caberá a cada pregador
e pregadora fazer a sua opção por aquele aspecto que mais tem a ver
com o contexto específico de seus e suas ouvintes. A minha sugestão é
que entremos no jogo de Lucas e façamos a construção da prédica a
partir da idéia do contraste: céu-terra, luz-escuridão, glória-sofrimento,
cruz-ressurreição, humildade-prepotência, poder-fraqueza, paz-violência,
alegria-tristeza etc. Importante é que não passemos a idéia de
dualismo, como se o mundo fosse predestinado a conviver com essas
realidades contraditórias. Aí vale a mensagem de que, a partir dos feitos
de Deus no Natal, tem início uma nova era em que a realidade vigente é
“invadida” pelo germe do novo mundo, criando a iminência da “implosão”
do velho mundo (seja no nível pessoal, comunitário ou social).
Sugestão de estrutura
a – Proponho mencionar, inicialmente, a ou uma situação concreta
que expresse a realidade de “noite” do momento atual da comunidade
(ou a realidade de “estábulo, cocho e panos”).
b – Num segundo passo, a situação apresentada poderá ser confrontada
com a narrativa de Natal, no sentido de que os feitos de Deus
em Belém iluminam a escuridão da noite, abrindo a perspectiva real do
nascimento de um novo dia (“cocho” e “panos” são os sinais indicadores
de onde Deus pode ser encontrado: eis a notícia de alegria, com a
qual somos evangelizados no Natal).
c – Como último ponto, sugiro apontar para algumas atitudes possíveis
e viáveis através das quais se dá hoje o encontro entre céu e
terra, ou seja, como se pode já “cantarolar” o hino dos anjos, como se
pode mudar já o “humor” quando se contempla a festa nos céus, como
se pode viver já no “clima” do banquete etc.
Para desdobrar o segundo e o terceiro pontos, faria uso de idéias
arroladas na meditação acima.
4
Liturgia
A narrativa de Lucas pede atenção especial para dois momentos
da liturgia: o Kyrie e o Glória. Eles sintetizam toda a mensagem natalina
de Lucas. Sugestivamente estão nessa ordem. Através do Kyrie a
comunidade expressa o grito a Deus pelas dores do mundo (lembremos
a “noite”, o “cocho”, os “panos”, o desprezo dos “pastores”, a exploração
do “povo recenseado” etc.). Este é o momento da solidariedade
da comunidade com todas as pessoas que sofrem. Imediatamente
após o clamor, a comunidade “explode” num louvor vivo a Deus, através
do Glória, cujo conteúdo é exatamente o hino dos anjos na noite de
Belém. A glória “se impõe” ao lamento das dores, bem assim como o
brilho dos céus invade a noite dos pastores. O Kyrie é a realidade, a
cruz, a morte. O Glória é a perspectiva, o horizonte, a ressurreição.
Também o Credo Apostólico merece ênfase neste culto, pelo fato
de expressar a confissão de fé da comunidade naquele que “padeceu
sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu
ao mundo dos mortos”. Para este é que indicavam os sinais do
cocho e dos panos. Neste, Deus pode ser encontrado, embora sub contrario.
Só quando a comunidade segue esses sinais, poderá confessar
que esse dono das fraldas e da cruz é o Senhor que, “no terceiro dia
ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus
Pai, todo-poderoso”.
Bibliografia
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GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. 7. ed. Berlim: Evangelische
Verlagsanstalt, 1974, p. 75-86.
SCHLATTER, Adolf. Das Evangelium des Lukas. 2. ed. Stuttgart: Calwer Verlag, 1960, p.
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LANCELLOTTI, Angelo; BOCCALI, Giovanni (orgs.). O Evangelho da Libertação segundo
Lucas. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 34-40.
RIENECKER, Fritz. Das Evangelium des Lukas. Wuppertal: R. Brockhaus, 1969, p. 42-62.
GOLLWITZER, Helmut. Die Freude Gottes. 2. ed. Berlim: Burckhardthaus-Verlag, 1952, p.
24-30. |