Na Eucaristia celebramos a vida de Deus e a nossa vida. Deus é santo e fonte de toda santidade (Oração Eucarística II). Pelo Batismo ele nos santificou, confiando-nos seu projeto. Celebrar a memória de Todos os Santos é olhar para nossa caminhada eclesial. Não basta contemplar o passado remoto ou próximo e constatar que muitas pessoas entregaram suas vidas por causa do Reino. Nós somos filhos de Deus, e isso significa traduzir nossa filiação na prática da justiça (II leitura). Em outras palavras, somos chamados a fazer as opções que nos comprometem com o Reino de Deus, pois delas depende nossa felicidade (evangelho). A morte e ressurreição de Jesus, celebradas na Eucaristia, e a memória de nossos mártires, nos fortalecem no enfrentamento da grande tribulação, a fim de que possamos permanecer de pé diante do Cordeiro. Celebrar a Eucaristia é lavarmos nossas roupas, alvejando-as no sangue do Cordeiro (I leitura).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. Evangelho (Mt 5,1-12a): A felicidade dos pobres
As bem-aventuranças marcam, no Evangelho de Mateus, o início do Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus.
O v. 1 mostra a quem se destina essa boa notícia: as multidões vindas da Síria, Galiléia, Decápole, Jerusalém, Judéia e do outro lado do Jordão (cf. 4,24-25). Há gente vinda de todos os lugares. Isso denota que a mensagem de Jesus não tem fronteiras (Mateus pôs, como destinatários das bem-aventuranças, os cristãos das comunidades às quais escreveu seu evangelho). Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a Nova Aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa Nova Aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus - o Emanuel - que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade.
As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade, e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino.
a. A felicidade dos pobres (vv. 3.10)
A primeira bem-aventurança "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (v. 3), juntamente com a oitava "Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu" (v. 10), são a síntese de todas as bem-aventuranças. As demais (vv. 4-9) esclarecem alguns aspectos dessas duas. A primeira e oitava possuem promessa idêntica: "porque deles é o Reino do Céu". Não se trata propriamente de uma promessa, mas de constatação do que está acontecendo: o Reino do Céu já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça! Esses dois grupos (pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça constituem, na verdade, um único grupo.) As demais bem-aventuranças trazem uma promessa futura: serão consolados, possuirão a terra etc. Contudo, não é de se esperar a realização dessa promessa no além. Ela é decorrência da opção que Deus fez pelos pobres e oprimidos, confiando-lhes o Reino, portador da plenitude dos bens: liberdade, vida, fraternidade, partilha, paz. Quando será realizado tudo o que aparece como promessa? Quando a nova prática da justiça fizer germinar e crescer o Reino.
A primeira bem-aventurança proclama felizes os "pobres em espírito". Freqüentemente tenta-se pôr panos quentes na força dessa expressão, como se os pobres em espírito fossem pessoas humildes, independentemente de sua condição social. A palavra pobre recorda os 'anawim do Antigo Testamento, da época de Jesus e das comunidades de Mateus: são os que depositaram sua confiança em Deus enquanto última instância, porque a sociedade lhes negava justiça. São pobres em espírito, ou seja, escolheram a pobreza (cf. 6,24) não porque a miséria os fizesse felizes, mas porque nessa condição participam do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e igualdade. Por isso Jesus afirma que o Reino do Céu é deles! Deus é o rei dos pobres (poeticamente, R. Tagore afirma que "Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores"). E com eles formará o novo povo; sendo pobres, saberão concretizar o Reino na partilha e solidariedade (cf. 14,13-23; 15,32-39). O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus (cf. 4,17: "Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo"). A melhor definição dos "pobres em espírito" que descobri é a que foi apresentada por uma mulher do povo: "O pobre em espírito é como o peixe no mar: tem toda a água à sua disposição, mas não a guarda para si; deixa-a para todos os peixes".
A sociedade estabelecida, ambiciosa de poder, glória e riqueza (cf. 4,9), não suporta uma sociedade alternativa que se forma em base à partilha e comunhão dos bens. Não suportando os pobres que aprenderam a partilha e a promovem enquanto forma de realizar o Reino, persegue-os, procurando eliminá-los (v. 10). Ser perseguido por causa disso constitui desgraça? Não. Para Jesus, e na ótica do Reino, é sinônimo de felicidade, pois a perseguição da sociedade estabelecida mostra que o caminho dos pobres que lutam pela justiça é autêntico: deles é o Reino do Céu! Contudo, é bom lembrar que não se trata de perseguição por qualquer motivo, mas por causa da justiça do Reino, e esta se traduz na solidariedade, igualdade e fraternidade. Aliás, a justiça é a chave que abre todas as portas do Evangelho de Mateus. Temos, assim, um critério claro para discernir se alguém é ou não pobre em espírito: basta examinar seu compromisso com a justiça do Reino e ver se está sendo, de alguma forma, perseguido por causa dela.
b. A situação dos pobres que buscam a libertação (vv. 4-6)
Os vv. 4-6 descrevem a situação dos pobres que buscam a libertação. Eles são afligidos. Essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento (cf. Is 61,1). Lá, os aflitos são pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de sociedade cruel e opressora. Afirmando que os aflitos serão consolados, Jesus lhes garante que o Reino tem força e capacidade de libertá-los das opressões a que foram submetidos. E por isso são felizes! Concretamente, nos capítulos 8-9, Mateus mostra como e quando isso acontece: a cura do leproso, do servo do centurião etc.
Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Também essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento, exatamente no Sl 37,10-11. Afirma-se aí que "mais um pouco e não haverá mais injusto; você buscará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante". Portanto, os mansos são os que foram "amansados" pelo poder tirano, que os privou da terra, impossibilitando-os inclusive de reivindicar seus direitos (o estudioso Alonso Schökel traduzia "mansos" por "despossuídos"). Olhando para a promessa que lhes é feita, é possível identificá-los com os sem-terra do tempo de Jesus, das comunidades de Mateus e de todos os tempos. Fazendo parte do Reino, eles possuirão a terra (com artigo!), isto é, não só receberão de volta seus terrenos roubados pelos poderosos latifundiários, mas serão senhores do mundo, porque a partilha fará com que os bens da criação sejam de todos. Lida à luz de nossa realidade, essa bem-aventurança soa mais ou menos assim: "Felizes os sem-terra que lutam pela justiça, porque a realeza de Deus sobre eles lhes garante que a terra é de todos".
Jesus proclama a felicidade dos que lutam pela justiça, dos que dela sentem necessidade como alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na utopia do Reino não há um sinal sequer de injustiça.
c. Opções e práxis dos pobres: construir a nova sociedade (vv. 7-9)
Os pobres, que entraram na dinâmica do Reino, são misericordiosos, isto é, solidários. Partilha e comunhão impedem que alguém retenha qualquer coisa para si. Nesse clima de solidariedade, ninguém passa necessidade. Quem dá recebe, não só das pessoas, mas do próprio Deus, que entregou o Reino nas mãos dos que aprenderam a repartir. É a primeira opção dos que entraram na dinâmica do Reino: pôr tudo em comum. E por isso são felizes!
A segunda opção é a pureza de coração. Para os semitas, coração é a sede das opções profundas que marcam a vida inteira. Para eles, pensa-se com o coração (Mt 15,19 mostra que do coração das pessoas nasce toda espécie de opção que contrasta com o projeto de Deus). Ser puro de coração é ter conduta única, em perfeita sintonia com o Reino. Essa bem-aventurança se inspira no Sl 24,4, onde pureza de coração está associada a "mãos inocentes". Mãos inocentes são resultado de um "coração puro": sem violência, sem corrupção, sem exploração etc. Os pobres do Reino são puros de coração porque não se apropriam da vida do próximo, como os poderosos. Sua conduta é íntegra. São felizes porque, agindo assim, vêem a Deus, ou seja, experimentam-no concretamente na vida. Deus está presente em todo clamor ou sinal de vida. Quem possui essa "pureza de coração" o vê e o encontra a cada passo.
No Antigo Testamento, a pureza dependia de uma série de ritos mediante os quais as pessoas tinham acesso a Deus, que se manifestava no Templo. Na Nova Aliança - e na linha do Sl 24 - pureza é sinônimo de opção pela justiça do Reino e respeito pela integridade das pessoas. Deus não se manifesta mais no Templo (quando Mateus escreve o evangelho o Templo de Jerusalém já não existe). As pessoas o experimentam de forma direta no dia-a-dia e no relacionamento fraterno. Essa opção gera felicidade: felizes os puros de coração!
Jesus proclama felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. A promoção da paz (shalom = plenitude dos bens) é fruto da solidariedade e pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui toda injustiça, opressão e violação de direitos. Não se trata de paz em nível pessoal, mas sobretudo em nível social. Na dinâmica do Reino, uma pessoa só é verdadeiramente feliz quando todas o são. A luta pelo bem-estar de todos, como o requer o projeto divino, torna os seres humanos filhos de Deus. Há, portanto, estreita colaboração entre o Criador e as criaturas. O que o Pai faz, os filhos também fazem. Os pobres que optaram pelo Reino são capazes dessa práxis. Jesus garante que disso depende a felicidade deles!
d. A comunidade cristã em meio aos conflitos (vv. 11-12a)
A última bem-aventurança (vv. 11-12) revela as tensões e conflitos enfrentados pelas comunidades migrantes na Síria, no meio das quais nasceu o Evangelho de Mateus. No tempo em que o evangelho foi escrito, essas comunidades passavam por crise de identidade, com perigo de abandono do projeto de Deus. Os conflitos vinham do império romano e do judaísmo oficial, representado pelos doutores da Lei e fariseus: a sociedade estabelecida começou a difamar os cristãos, caluniando-os e perseguindo-os. Tornava-se difícil resistir diante das pressões e tribulações de toda espécie. O evangelho lhes lembra que ser discípulo de Jesus é ser como os profetas do Antigo Testamento: "Desse modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês" (v. 12b).
2. II leitura (1Jo 3,1-3): A esperança que anima e purifica
A primeira carta de João foi "dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a comunidade. A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar ao próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e conseqüentemente todos devem amar-se como irmãos" (Bíblia Sagrada - Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, p. 1578).
Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: "todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus" (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai (cf. evangelho: "Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus").
O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o tematiza empregando a expressão "o mundo" (os que não aderiram ao projeto de Deus): o "mundo", descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2).
Enquanto não chega a plena manifestação, cabe à comunidade cristã, na esperança, lutar para ser pura como Jesus é puro (v. 3). Em outras palavras, faz-se necessário resistir e implantar a justiça, de modo que nossa prática traduza as palavras e gestos de Jesus. Ser filhos de Deus, portanto, é ser filhos no Filho, que mostrou ao mundo a justiça do Pai. Essa é a esperança que anima e purifica.
3. I leitura (Ap 7,2-4.9-14): A vitória dos oprimidos
O capítulo 7 do Apocalipse funciona como uma espécie de pausa para reflexão dentro da "seção dos selos" (6,1-7,17). A seção se caracteriza pela abertura progressiva, por parte do Cordeiro, dos sete selos. Os primeiros quatro (6,1-8) nos apresentam crua fotografia da humanidade arrastada pela ganância, violência, exploração e morte. Diante dessa situação desastrosa, abre-se o quinto selo (vv. 9-12). O clamor dos mártires provoca a reversão dos fatos e a intervenção de Deus e do Cordeiro, pois chegou o grande dia de sua ira: quem poderá ficar de pé? (sexto selo). O capítulo 6 termina com uma grande expectativa. Quem poderá ser considerado inocente (é este o sentido dessa expressão) diante da intervenção do Deus que julga a humanidade?
O capítulo 7, ao qual pertencem os versículos da leitura de hoje, procura responder a essa expectativa em dois momentos sucessivos. Num primeiro momento, abre-se uma janela em direção ao passado (vv. 4-8). O autor do Apocalipse se inspira no recenseamento dos hebreus saídos do Egito (Nm 1,20-43) para mostrar que Deus preserva do julgamento (os Anjos que seguram os quatro ventos, 7,1) aqueles que lhe são fiéis (chamados de servos, ou seja, profetas), e os salva (o sinal que os eleitos recebem na fronte é sinônimo de salvação, v. 3; cf. Ez 9,4). Segue-se, então, o recenseamento dos eleitos: 144 mil. O autor, utilizando o simbolismo dos números, mostra que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de números perfeitos: 12 x 12 x 1000).
A segunda janela se abre para o presente/futuro da comunidade cristã (vv. 9-17). Se no passado Israel foi salvo da escravidão egípcia, com maior razão agora o Cordeiro salvará, conduzirá os que permanecem fiéis, enxugando-lhes as lágrimas (enxugar as lágrimas é sinônimo de "fazer justiça"). Por isso o autor vê uma multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas (isto é, do mundo inteiro, v. 9a). É aqui que se responde à pergunta angustiante com que se encerrava o capítulo 6: "Estavam todos de pé diante do trono e do Cordeiro" (v. 9b). E não só podem ficar de pé (isto é, são declarados inocentes), como também participam da própria vida divina: vestem-se de branco (cor que, no Apocalipse, remete à vitória de Cristo sobre a morte) e são vitoriosos (trazem palmas na mão, v. 9c). Essa multidão reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro (v. 10) e sua aclamação é seguida pela dos Anjos, Anciãos e Seres vivos, que tributam a Deus tudo o que lhe é devido (v. 12).
A comunidade cristã, na escuta do texto do Apocalipse, em clima de celebração e discernimento, é convidada, na pessoa do autor, a identificar quem são os que estão vestidos de branco e de onde vieram (v. 13). Diante da incapacidade em desvendar o mistério (v. 14a), um dos vinte e quatro Anciãos dá a chave de leitura: "São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro" (v. 14b). A partir disso, a comunidade cristã está em condições de descobrir, no meio dessa imensa multidão, seus mártires e santos, que resistiram até o sangue. A memória deles anima a difícil caminhada dos que agora estão lutando para implantar o projeto de Deus na história.
O Apocalipse foi escrito para animar comunidades perseguidas até a morte pela opressão e repressão do império romano. A vitória do Cristo sobre as forças do mal e a memória dos mártires das comunidades devolveram aos cristãos a força própria de sua vocação: a capacidade de denunciar e resistir a todo poder absolutizado que oprime e mata. Os mártires são vitoriosos e estão com Cristo: cabe a nós resistir e lutar.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A festa de Todos os Santos é momento oportuno para uma revisão da caminhada da comunidade. Olhando para os que nos precederam, santos e mártires, a comunidade é convidada a se questionar sobre seu caminho de santidade. Somos filhos de Deus. Porém, nossa filiação se traduz na prática da justiça (II leitura). A prática da justiça se traduz na vivência das bem-aventuranças (evangelho). Ao tentar vivê-las, os cristãos deparam com conflitos, calúnias, perseguições e morte patrocinados pela sociedade estabelecida que não aderiu ao projeto de Deus. O que isso significa para nós: desgraça ou felicidade? A memória dos mártires da caminhada é esperança e conforto: Jesus tem a última palavra sobre os conflitos e as forças do mal. Urge à comunidade denunciar e resistir em meio às tribulações (I leitura). Não há outro caminho de santidade!