Proclamar Libertaçao -
Auxílios para o anúncio do Evangelho.
É uma coleçao que vem desde 1976, como fruto de um trabalho de mutirao, do qual participa muita gente do Brasil e da América Latina. O trabalho exegético, a reflexao, os subsídios litúrgicos, sao contribuiçoes para a preparaçao do culto, dos estudos bíblicos e de outras celebraçoes na vida comunitária.
Editado pela da
ISAÍAS 11.1-9 -
LUCAS 2.1-7
ROMANOS 1.1-7 Alfredo Jorge Hagsma
1 Introdução
É a quarta vez que esse texto aparece como motivo de pregação desde o
início da série Proclamar Libertação (1990, 1999, 2002 e 2008). No entanto, é a
primeira vez que ele é indicado para pregação na véspera de Natal. Nas outras
vezes, ele foi refletido no primeiro domingo após o Natal. Apesar da proximidade
e afinidade entre as datas litúrgicas, creio que podemos trilhar por um viés
diferente. Os textos auxiliares (Lc 2.1-7 e Is 11.1-9) têm estreita relação com o
texto em questão. O evangelho narra o nascimento de Jesus; o profeta Isaías
anuncia a nova realidade que o nascimento desse descendente do rei Davi vai
trazer. Esse descendente “será como um ramo que brota de um toco, como um
broto que surge das raízes”. O Espírito de Deus estará sobre ele. Por isso ele
terá sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. As pessoas necessitadas
serão julgadas com justiça, e os pobres terão seus direitos respeitados.
Os
v. 6-9, de forma comparativa, apresentam uma realidade sonhada. Lobos, ovelhas,
leopardos, cabritos, bezerros, leões, vacas, ursas, bois, crianças e cobras
poderão conviver em paz e harmonia. É a utopia da paz que valoriza as diferenças.
Com o nascimento de Cristo (Lc 2.1-7) essa nova realidade (Is 11.1-9) vai
ser inaugurada em nosso meio. Paulo, servo e apóstolo de Cristo fala, nesses
primeiros versículos da Carta aos Romanos, dessa boa-nova que é o evangelho
de Cristo e de sua responsabilidade em fazer esse tesouro chegar a todas as
nações e também aos que moram em Roma.
2 Informações exegéticas
Em todas as suas cartas, Paulo faz uma breve apresentação e introdução
do conteúdo a ser apresentado. A carta de Paulo aos Romanos não foge à
regra. Quando Paulo escreve essa carta, ele ainda não havia tido oportunidade
de conhecer a comunidade de Roma pessoalmente. Do ponto de vista
teológico, pode-se dizer que essa é a mais importante de todas as cartas de
Paulo. “Esta epístola foi escrita, provavelmente, por volta do ano 55, durante
uma permanência de Paulo na cidade de Corinto. Tanto pelo seu conteúdo
como pelas características literárias, assemelha-se à epístola enviada às igrejas
da Galácia. As duas pertencem a mesma época e revelam interesses dou
trinários semelhantes. O que não se sabe é qual delas foi escrita primeiro.
Por isso alguns vêem em Romanos uma exposição ampliada, muito refletida
e serena da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que
Gálatas é uma espécie de síntese de Romanos.” (Introdução à Carta de Paulo
aos Romanos – Bíblia de Estudo Almeida – Revista e Atualizada)
Esses sete primeiros versículos fazem parte do prólogo. Ali Paulo diz
quem ele é e o que pretende anunciar. A saber: a boa-nova prometida por
Deus por meio de seus profetas e escrita nas Sagradas Escrituras (v. 2). Essa
boa-nova anuncia Jesus Cristo como Senhor (v. 3). Não qualquer senhor, mas
aquele provindo de Deus, que ressuscitou (v. 4). Paulo não escreve partindo
de sua própria autoridade, mas como apóstolo a serviço de Deus. Com essa
carta Paulo pretende passar seus conhecimentos teológicos à comunidade
de Roma.
O evangelho (Lc 2.1-7) dispensa maiores informações exegéticas. Trata-se de um texto clássico: a narrativa do nascimento de Jesus. Lucas apresenta
a situação social da época. Sob o poderio do imperador Augusto, todos
os cidadãos do império precisam participar do senso a fim de ser feita uma
contagem da população. Cada um deve dirigir-se à sua cidade natal para
esse senso. José vai a Belém. E, enquanto estão na cidade, Maria dá a luz
um menino. É uma realidade de dominação. Todas as pessoas são obrigadas
ao senso, e de exclusão, tendo em vista que não são garantidas as condições
mínimas nem mesmo para uma mãe na hora do parto. Paulo diz que há muito
tempo essa boa-nova foi prometida por Deus por intermédio de seus profetas.
Nesse sentido, o profeta Isaías (11.1-9) faz referência a um rebento que
sairá do tronco de Jessé. Sobre esse repousará o Espírito do Senhor, o Espírito
de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito
de conhecimento e de temor do Senhor (v. 1,2). Nos v. 3-11, de forma
analógica, o profeta apresenta uma nova realidade que esse esperado Messias
implantará. Esse Messias anunciado pelo profeta é o próprio Cristo.
Há perfeita sintonia entre as três leituras propostas. O Evangelho de
Lucas 2.1-7 relata o nascimento do Messias, o profeta Isaías anuncia a nova
realidade a ser implantada por esse Messias e o apóstolo Paulo, no texto que
temos como base para a pregação (Rm 1.1-7), coloca-se como servo desse
Messias. Ele tem a função de fazer levar adiante a mensagem desse Messias
prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras. Creio que os aspectos
exegéticos aqui abordados são suficientes para a compreensão do texto em
questão. No entanto, para quem desejar um aprofundamento exegético desse
texto, considere o Proclamar Libertação vol. 25, p. 55s., como preciosa sugestão.
3 Meditação
É noite de Natal. Provavelmente o templo está superlotado. As pessoas
estão ansiosas por uma mensagem cativante. Todos os anos, nessa noite, o
foco principal da mensagem é o mesmo: nasce o menino Jesus numa
estrebaria, entre animais, porque para ele não havia lugar na cidade organizada.
Mas isso não é problema. Agora tudo está tranqüilo. Canta-se “Noite
Feliz”. Todo mundo vai para casa contente para celebrar a ceia, e tudo estará
bem. A tragédia transforma-se em romance. A situação de exclusão não entra
em questão. Não é atualizada, apenas maquiada, bem perfumada. “Que
Natal estranho” – afirmou o pastor e teólogo luterano Milton Schwantes numa
reflexão que sugiro como base para a mensagem na noite de Natal.
Este é um tempo festejado ano após ano; o Natal não deixa de pôr seus acentos. A
gente o vê em toda parte. Comemora quem crê. E também festeja quem não crê. E
convém que assim seja. Afinal, Deus está conosco no Natal. A gente se alegra com
esta maravilha que é nosso Deus. Não é mera idéia. Nem é alguma ilusão. E muito
menos um tipo de construção. Ele é presença entre nós.
Tudo isso é muito concreto. Tem data e local. Acontece em Belém, na manjedoura, em
torno de um menino. Assim aparece a amizade de Deus por nós: concreta, palpável.
Vale a pena comemorar tamanha amizade, tão maravilhoso aconchego de Deus em
nossa vida. O que, aliás, vale para crentes e descrentes. Mas, por falar em manjedoura,
que estranho! Parece não caber no quarto. Por isso os presépios tanto a enfeitam.
Embelezam sua feiúra. Escondem seu mau cheiro. De todo jeito, foi na manjedoura
que floriu a amizade de Deus. Estranho!
E Herodes não gostou. Mandou procurar o menino. Pediu que fosse denunciado seu
paradeiro. E para apanhá-lo, mandou logo matar duas mil crianças que corriam pelas
ruas de Belém. Herodes, esse chefe todo-poderoso, não se agradou dessa amizade de
Deus. É que Deus vem a nós de jeito estranho, inesperado. Faz-se rodear por gente que
nem parece ser, por esses tipos que vivem junto às manjedouras e aos lixos do mundo.
Começa por convidar pastores de ovelhas, gente difamada e malvista. Convoca doentes
e doidos. Felicita empobrecidos. E tudo fica às avessas.
Estava tudo tão claro e ordenado. Uns no poder e outros excluídos de tudo. Herodes lá
no palácio. E os demais cá na miséria. Todos já se haviam acostumado. Davam-no
como aceito, normal, quase natural. E Deus põe tudo às avessas. Não vai ao palácio,
para nascer por lá. Vem pela manjedoura, rodeado de gente desfigurada, com cara e
cheiro dos porões da humanidade. Que Natal estranho!
Na introdução à Carta aos Romanos (1.1-7), o apóstolo Paulo coloca-se
a serviço da pregação do evangelho como servo de Deus. Ele quer e precisa
anunciar a história da salvação, e isso significa da manjedoura à cruz. Sem
esconder nada. Nós que ousamos pregar o evangelho também estamos nessa
mesma condição. Justamente por isso precisamos tomar cuidado para
não acabar maquiando a realidade do Natal. O Natal vai continuar sendo
estranho aos olhos de Deus se a realidade do nascimento de Jesus não for
apresentada.
4 Pregação
Certamente a celebração da noite de Natal é marcada por muitas participações:
as crianças trazem sua mensagem, os jovens e outros departamentos
da comunidade. Pelo menos é assim em muitas comunidades, de tal
sorte que o tempo para pregação propriamente dita fica restrito. No entanto,
creio que é importante não deixar passar em branco os aspectos abordados
no ponto anterior. Sugiro a seguinte estrutura:
1) A comunidade que se reúne é comunidade de servos e servas de
Jesus Cristo. Nesse sentido, a comunidade tem a incumbência de
anunciar o evangelho sem maquiagem.
2) O nascimento de Jesus naquelas condições denuncia a falta de espaço
na sociedade organizada para milhões de crianças. Paulo escreve
essa carta para anunciar a boa-nova, e essa não pode esconde
a realidade, muito antes a denuncia.
3) Quais as conseqüências do crer e obedecer (v. 5) para a comunidade
local?
4) Assim como Deus chamou a comunidade de Roma para ser de Cristo,
também a comunidade local pertence a Cristo. Que implicação
tem este “pertencer a Cristo”? (v. 6.7)
5) A comunidade de Cristo é abençoada com palavras de graça e paz.
Que implicações tem para a vida comunitária ser gente abençoada?
Em resumo, penso que a pregação deve apontar para a razão do ser
comunidade cristã. Vivemos numa realidade em que a grande maioria professa
a fé cristã; no entanto, a situação denuncia uma fé sem comprometimento.
5 Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados:
Bondoso Deus, quantas vezes ficamos indignados com os donos das
pensões de Belém. Por que eles não deram abrigo a José e Maria? Como
foram deixar uma mulher grávida repousar numa estrebaria? Quão insensíveis
foram eles! No entanto, amado Deus, ainda hoje milhares de crianças
continuam nascendo sem nenhuma proteção e dificilmente ficamos indignados,
fechamos nossos olhos. Talvez por isso tentamos a todo custo pintar
com beleza o teu nascimento. Perdão, Senhor. Percebemos que o nosso compadecer
por tua situação é demagogia. Perdão, Senhor, perdão, por amor do
Jesus menino. Amém.
Proclamação da graça:
Desejamos mudar de vida, desejamos um Natal diferente, desejamos
perdão e Deus o dá a todas as pessoas que sinceramente se arrependem.
Assim, proclamo o perdão que vem Deus com as palavras do apóstolo Paulo:
“Que a graça e a paz de Deus, o nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam
com vocês”.
Oração do dia:
Querido e amado Deus, mais uma vez queremos celebrar o nascimento
de teu amado filho Jesus. Reconhecemos que temos encontrado dificuldade para celebrar de forma digna esse aniversário. Temos comercializado o nascimento
do filho de Deus, vendemos e compramos esse tão sublime acontecimento
como qualquer outra mercadoria. Perdão, Senhor, perdão. Queremos
novamente voltar ao sentido pleno desse dia. Queremos a paz de teu nascimento,
a humildade, a entrega e a justiça. Vem nascer em nossos corações.
Rogamos a Deus para que o Jesus da manjedoura possa encontrar lugar em
nossa vida. Por Cristo. Amém
Bênção:
Que o Deus menino com sua humildade e simplicidade vos abençoe e
vos guarde; que o Deus menino faça resplandecer o seu rosto sobre vós,
tenha misericórdia de vós; que o Deus menino sobre vós levante o seu rosto e
vos dê a paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bibliografia
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,
1973. p. 395-416.
CELEBRAR NATAL em família e comunidade. São Leopoldo: Sinodal, 2006.