Diocese Anglicana de Brasília – DAB/IEAB
Secretaria de Direitos Humanos
Paulo Couto Teixeira
DOM FREI LUIZ CAPPIO E O PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO
Subsídios preliminares para compreensão dos Bispos Anglicanos (IEAB)
Brasília, 4 de dezembro de 2007
SUMÁRIO
Parte I – Aspectos técnicos do projeto
1 - Origem do projeto
2 - O que é o projeto de transposição de águas do São Francisco
3 - Considerações preliminares sobre o projeto
3.1 – os custos
3.2 - requerimentos técnicos e sua operacionalização
3.3 - questão ambiental
4 - A falácia do Saneamento Básico
5 - Há alternativa ao projeto?
Parte II - Refletindo sobre o Jejum de Dom Luiz Cappio
1 - Dom Frei Luiz Flavio Cappio, irmão menor dos pobres
2 - No Pretório de Pilatos
3 - Compromisso, Coerência e Generosidade
PRIMEIRA PARTE: ASPECTOS TÉCNICOS
1 – Origem do Projeto
A idéia do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco vem de longa data. No início da década de 1980 o tema foi considerado no âmbito dos estudos relativos à reformulação da Política de Desenvolvimento Rural do Nordeste, não obtendo aprovação. Considerou-se que a falta de água na região era devida ao seu mau uso e a problemas de gestão hídrica, e não a sua carência relativa. E que esta dificuldade era afetada significativamente pelos problemas fundiários do Nordeste, especialmente a necessidade de uma reforma agrária. Tal foi a conclusão de talvez o maior esforço de planejamento feito no Nordeste, que envolveu todos os órgãos federais e estaduais atuantes na área regional e setorial, bem como todas as agências internacionais de fomento e desenvolvimento, especialmente o Banco Mundial.
Entretanto, já no Governo Sarney o assunto voltou à baila, empurrado por poderosos setores políticos e empresariais nele interessados, e iniciaram-se os estudos prévios, que evoluíram durante o Governo Collor, com o ministro Aluísio Alves, e a partir daí tornou-se uma bandeira principalmente do governo Lula.
Paradoxalmente, Lula e o PT sempre se haviam colocado contrários à proposta. Entretanto, cederam à argumentação do Ministro Ciro Gomes e dos interesses que ele representava no governo. Hoje em dia, este é um dos principais objetivos programáticos do governo federal. Lula está completamente obcecado pela iniciativa.
2 - O que é o Projeto de Transposição do Rio São Francisco
Trata-se de um projeto de transposição de bacias hidrográficas, cujo objetivo é enfrentar o problema da falta de água no Nordeste, especialmente nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, mediante a transposição das águas do Rio São Francisco para canais e rios que cortam aquelas regiões, de modo a servir à irrigação com vistas aos pequenos produtores rurais e ao abastecimento de água nas cidades. Refere-se, assim, a um projeto de irrigação do Semi-Árido Nordestino e de saneamento básico com águas tiradas do rio São Francisco. Um projeto de modernização técnica do Semi-Árido via irrigação de vales secos e fornecimento de água de fora para açudes e rios locais, de maneira a compensar o balanço hídrico de bacias regionais que se apresenta com o risco de se tornar negativo. As águas do São Francisco serão conduzidas por canais nas regiões semi-áridas do Moxotó (Pernambuco), Piranhas - Açu (na Paraíba e no Rio Grande do Norte), e na zona seca do Jaguaribe até Aracati. O projeto espera transformar estas regiões semi-desertas em vales verdejantes, agriculturáveis. Açudes e reservatórios seriam repletos, melhorando sua vazão no sentido de normalizar o abastecimento de água nas cidades. No Ceará, por exemplo, o famoso açude do Cedro não vasa há muito tempo, e se mantém com cerca de 15% de sua capacidade; quanto a Recife, também, por exemplo, a falta de água ocasionou recentemente o racionamento de água, havendo fornecimento de apenas 3 dias em cada dez. Ao todo, pretende-se beneficiar 12 milhões de nordestinos.
3 - Considerações preliminares sobre o projeto
Como se vê, o projeto tem certa lógica, mas é muito polêmico e tem causado divisão entre os estados da parte Sul – que vêem com preocupação o açoreamento sofrido pelo rio - e os do Norte daquela região, que disputam entre si o uso das águas do São Francisco. Algumas características mais importantes podem ser apontadas em sua avaliação, quais sejam:
3.1 – os custos
Trata-se de um projeto extremamente oneroso e tecnologicamente sofisticado. Exigirá recursos públicos orçados em R$ 4,7 bilhões (quatro bilhões e setecentos milhões de reais) para sua implantação, podendo chegar a muito mais que isto. Implica na construção de poderosa infra-estrutura de captação de água e de canais primários e secundários, nos quais se utilizará grande quantidade de cimento e ferro nas centenas de quilômetros de sua extensão. Os retornos sociais são duvidosos, se não negativos. Estes custos serão absorvidos pelo governo federal, e os donos das terras por onde passarão os canais terão suas propriedades muito valorizadas sem que eles tenham investido nada. Não se cobra contribuição de melhoria no Brasil. No projeto, não se sobrepôs o trajeto dos canais com mapas de situação fundiárias destas terras.
Os altos custos implicariam em cobrança de água fornecida para os produtores, o que hoje não acontece. De qualquer maneira os técnicos prevêem que este custo tenha que ser subsidiado, mesmo para os ricos, tão elevados resultariam os custos privados do projeto.
3.2 - requerimentos técnicos e operacionalização
O funcionamento do projeto no que respeita à irrigação requer um manejo muito sofisticado que está acima das possibilidades técnicas dos pequenos agricultores. O uso econômico viável de um projeto desta natureza é a utilização empresarial de alta tecnologia, voltada ao hidronegócio para exportação, principalmente os produtos de alto rendimento como frutas e eventualmente de cana para álcool.
Ao contrário da experiência brasileira no planejamento regional em épocas passadas, as terras a serem cortadas pelos canais não serão desapropriadas. Pela experiência vivida nos programas regionais, apenas os mais ricos e com poder de barganha político terão verdadeiro acesso a facilidades de crédito e fomento. Isto sempre aconteceu com os programas de recursos hídricos do Nordeste, a nível do DENOCS, da CODEVALE, e mesmo do Polonordeste. Em outras regiões deu-se o mesmo processo, como nos programas regionais do Norte Fluminense, o Polocentro e o Pantanal.
Em suma, o projeto da transposição nada mais é que o relançamento dos conhecidos programas de irrigação do Nordeste desenvolvidos pelos militares, com uma tintura moderna. Uma miragem. Uma estrutura de irrigação para grupos privados à custa de muito, mas muito dinheiro público.
3.3 - questão ambiental
Embora a construção do canal em si não traga necessariamente danos ao meio ambiente, conforme conclusão de avaliação realizada a nível do Banco Mundial, o impacto desse tipo de irrigação, feita a nível empresarial moderno, tem sido bastante danoso e predatório especialmente à flora nativa devido ao desmatamento, e quanto ao destino dos resíduos químicos provenientes da exploração agropecuária. Essa modalidade de irrigação tem ocasionado também forte salinização do solo, em projetos semelhantes como o Nilo Coelho, em Petrolina, degradando até 40% da área irrigada. A salinização é conseqüência do levantamento do lençol freático pela maior humidade , somado à incidência intensa de luminosidade. Os custos para recuperação dessas áreas são altíssimos. De acordo ainda com estas conclusões do Banco Mundial, outros impactos precisam ser mais bem estudados, como a troca de microorganismos que pode decorrer da mistura de águas de origens diversas.
4 - A falácia do Saneamento Básico
Embora o objetivo de irrigação seja importante, tanto para a propaganda governamental quanto para o interesse dos grupos empresariais ligados ao agronegócio e as grandes empreiteiras de obras públicas, parece que o maior objetivo do projeto, como propalado pelo governo, é melhorar o abastecimento de água nas cidades, colocado em risco pelas perspectivas sombrias do balanço hídrico das bacias regionais projetado para médio e longo prazo. Traduzindo em outras palavras, a tendência de faltar água para abastecimento da população urbana, por falta de água na região: os açudes não enchem mais, os rios minguam, e este é um problema real. Segundo o Banco Mundial, aumento de oferta de água resulta maior consumo por família e melhor qualidade de vida da população.
Entretanto, este balanço hídrico, assim projetado, incorpora todo o tipo de mau uso e de ineficiência tanto na exploração econômica do solo, quanto no manejo e gerenciamento dos sistemas hídricos existentes a nível regional. A implantação de um projeto como este sem resolver primeiro estes problemas absolutamente não atingirá os efeitos desejados. Equivale a se enxugar um chão inundado sem antes fechar a torneira que inunda a sala. E aí desponta um fator muito importante no sumiço da água: o grande desmatamento que ocorre nas cabeceiras dos rios e nas matas ciliares, principalmente. Tanto no Rio São Francisco quanto nas bacias regionais do Nordeste. Significativamente o projeto de transposição não contempla o reflorestamento e aí está uma de suas maiores omissões técnicas. Se as áreas afetadas fossem reflorestadas o potencial hídrico das bacias aumentaria bastante. Observações atestam que onde se desmatou acabou a água; e onde se refez a cobertura vegetal recuperaram-se as fontes e os cursos de água, beneficiando também a flora e a fauna nativas.
Outro fator a considerar é a melhoria da gestão dos sistemas hídricos existentes, racionalizando o aproveitamento atual. Por exemplo, na mesma época que Recife teve que racionar água, Fortaleza não sofreu tanto, pois o Estado do Ceará tem estado mais cuidadoso neste sentido. Alguns estados tem avançado mais no gerenciamento das águas do que outros.
5 - Há alternativa ao projeto?
A uma política vigorosa de reflorestamento para recuperação de mananciais, uma alternativa que tem sido apontada às grandes obras do projeto de transposição é o “Atlas Nordeste” ( ), o qual, conforme seu site na internet, refere-se a:
“trabalho coordenado pela Agência Nacional de Águas - ANA, com intensa cooperação das Secretarias Estaduais de Recursos Hídricos e acompanhamento do Ministério da Integração Nacional, Ministério das Cidades e Ministério da Saúde. Foi elaborado com o objetivo de identificar e propor alternativas técnicas com garantia hídrica para atender as atuais e futuras demandas por água da população urbana da área de abrangência.
O ATLAS compreende todos os 09 Estados da Região Nordeste e as bacias dos rios São Francisco, Pardo, Mucuri e Jequitinhonha, situadas em Minas Gerais.
Em princípio, seriam contempladas as sedes municipais com população urbana superior a 5.000 habitantes, mas os resultados finais englobam também as localizadas na área de influência de sistemas integrados com população inferior ao limite inicialmente estabelecido, totalizando mais de 1.300 sedes municipais.
O ATLAS é composto de diversos estudos (estimativa de demandas, análise de recursos hídricos superficiais e subterrâneos, avaliação de sistemas de produção de água, arranjo institucional, etc.) que culminaram na definição de alternativas técnicas. Como o foco é a garantia da oferta de água, as alternativas técnicas dizem respeito ao sistema de produção, coincidindo com a parcela do sistema referente à área de recursos hídricos.”
Pelo que consta, existem cerca de 500 projetos locais registrados para utilização de água em açudes e locais públicos, e mais 140 tecnologias da ASA-Associação do Semi-Árido e da EMBRAPA voltadas para as cidades e o meio rural, mas eles não tem o mesmo apelo.
Quanto ao desenvolvimento rural em si, voltado para o atendimento da pobreza rural quanto a geração de renda e emprego e acesso à água, é consenso técnico generalizado que um projeto desta magnitude jamais atingiria os segmentos mais necessitados da população rural. A este respeito, convém relembrar as alternativas sugeridas pelos bispos anglicanos, católico-romanos, metodistas e luteranos no documento “Os Pobres Possuirão a Terra”, especialmente a Reforma Agrária.
Há quem argumente, a nível técnico, que mesmo estas medidas como as sugeridas pela ANA poderiam complementar mas não servir como alternativa ao projeto de transposição, em face do balanço hídrico de médio prazo ter que ser corrigido de qualquer maneira. Mesmo assim, neste caso, a estratégia utilizada pelo governo está equivocada. Do ponto de vista técnico, o que foi recomendado era começar de baixo para cima, e não abrir, primeiramente, a tomada dágua e os canais. Ou seja, antes de realizar as obras de transposição realmente ditas, seria necessário explorar ao máximo o potencial das bacias locais e avançar no gerenciamento e racionalização dos sistemas atuais, para mais tarde, se esgotadas todas as alternativas (inclusive a revitalização dos rios e mananciais via reflorestamento e outros cuidados), aí sim fazer a transposição. Entretanto, o Governo Lula, pressionado e seduzido pelos grandes interesses empresariais, foi tratando logo de lançar as obras de infra-estrutura dos canais, de maneira a criar uma situação de fato e irreversível, de tal forma que futuros governos não tenham mais como deixar de prosseguir com a implantação. Uma estratégia usual, mas que em casos como este pode produzir resultados nefastos.
Evidentemente, esta política assume riscos elevadíssimos, tendo em vista as omissões e as incertezas deste polêmico projeto. Infelizmente, neste ponto, o governo federal está comprometendo recursos públicos de alto custo de oportunidade, numa aventura inusitada: uma roleta russa que atende aos interesses dos grandes empresários das obras públicas e do agronegócio, utilizando contudo a nossa cabeça... Eles não perdem nada se o projeto não oferecer os resultados previstos; os empreiteiros ainda ganharão muito, mas o risco todo é da sociedade brasileira, que está embarcando na ratoeira de uma loteria da qual não se libertará tão facilmente, caso seja mesmo concretizada, como tudo indica.
Na parte seguinte iremos analisar a atitude do Bispo Dom Luiz Cappio, que reiniciou seu jejum de orações contra a implantação deste projeto, bem como as suas implicações éticas, eclesiais e sociais.
SEGUNDA PARTE - REFLETINDO SOBRE O JEJUM DE DOM LUIZ CAPPIO
1 - Dom Frei Luiz Flavio Cappio, irmão menor dos pobres
Dom Cappio nasceu em Guaratinguetá e tem 61 anos de idade. Em 1970 fez sua profissão religiosa como frade franciscano em Petrópolis, sendo ordenado presbítero em 1971. Sua sagração episcopal deu-se em 1997 e no mesmo ano assumiu a diocese de Barra, na Bahia. Além dos cursos de filosofia e teologia, completados no seminário franciscano de Petrópolis, graduou-se em Economia pela Universidade Católica de Petrópolis.
Sua ordenação como Bispo jamais obscureceu sua autêntica e profunda vocação missionária de pregador itinerante do evangelho. Como os velhos missionários em desobriga, palmilhou a pé o vale do São Francisco, visitando as comunidades ribeirinhas e sertanejas, indo de casa em casa, povoado a povoado, conhecendo, animando e celebrando a vida do povo. Publicou dois livros que tem a ver com esta experiência: Catecismo Água Viva, Editora Santuário, e Rio São Francisco, uma Caminhada entre Vida e Morte, pela Editora Vozes. Essa vivência foi crucial para compreensão dos problemas e potencialidades que envolvem a geografia humana e o espaço físico no qual atuava. Profeta e Místico, encarna o que há de melhor no franciscanismo. Não só o Seráfico dos peixes e passarinhos, mas o santo corajoso que, cheio de Deus, rompeu as linhas dos cruzados e foi, só e maltrapilho, ao encontro do inimigo Saladino, para pregar a Paz. Tão impressionado ficou com ele o temido Sultão, que recebeu aquele “louco” com o maior respeito; e depois de fraterna convivência, devolveu-o, escoltado e em segurança, às linhas dos guerreiros cristãos.
Dom Cappio é o São Francisco: suas águas, suas ribeiras, seus peixes, seu povo. Uma identificação tão profunda que só os místicos e os artistas entendem. Um povo, um rio e uma natureza que se esvaem. Talvez por isto morte e vida se confundam tanto em sua realidade. Tenta agora convencer a todos, de maneira radical e dramática, pela segunda vez, que a revitalização do Rio (e dos rios) é a única alternativa humana e misericordiosa capaz de promover a vida da região. Retomou, há poucos dias, o seu jejum de orações pela saúde do rio, disposto a ir até as últimas conseqüências. Pretende, qual David contra Golias, parar as obras que iniciaram o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, um empreendimento polêmico que visa a transportá-las às regiões mais secas do Nordeste Setentrional. O povo nordestino se divide. Boa parte – notadamente os ribeirinhos do Velho Chico – é contrária às obras, mas muitos também a querem, mais ao Norte, na esperança de serem beneficiados com a água. Independentemente do tamanho desse dissenso, com certeza os grandes empreiteiros, os latifundiários, o agro negócio e os políticos ligados ao governo federal a querem muito, por óbvias razões.
2 - No Pretório de Pilatos
À pertinácia de Dom Cappio, contrapõe-se a obstinação do Poder. Para ele, o bispo é um maluco irresponsável que exorbita de sua competência e chantageia o governo. No dizer de uma autoridade, a ‘extorsão’ dele é tão ineficaz como se o Ministro da Integração fizesse uma greve de fome para o Papa, por exemplo, revogar o celibato sacerdotal. A coisa está neste pé, não existe possibilidade de conciliar o mundo de Dom Cappio com o mundo do Poder. O que explica a interminável discussão sobre as premissas e os instrumentos do projeto: o antagonismo se dá principalmente no nível ético, mais que no nível técnico.
Pode-se até copiar a mise-en-scène que nos contam os evangelhos sobre o julgamento de Jesus por Pilatos (Jo 18, 33-36; 19, 9-11).
No Horto das Oliveiras, Jesus se entregou voluntariamente aos que vieram prendê-lo. Um amigo o traiu, os outros irmãos e irmãs fugiram ou se omitiram de seu compromisso, deixando-o sozinho. Antes, ele partira resolutamente para Jerusalém (Lc 9,51), contando com a possibilidade de ser morto na Cidade Santa. Naquele contexto, acontecia no Império a Pax Romana, a solução do imperador para o progresso e a felicidade dos seus súditos. Na Galiléia, Herodes Antipas aprofundava a helenização da cultura e do território, agora em sua etapa romana. Séforis, a grande capital fora reconstruída; multiplicavam-se os templos ao imperador, os estádios, os aquedutos, as avenidas, os balneários e os ginásios. Tiberíades foi construída junto ao Mar da Galiléia para – no dizer de J.D. Crossan – possibilitar a tributação do pescado que os camponeses-pescadores extraíam para se manterem. A família de Anás e Caifás e a elite colaboradora com os romanos faziam vistas grossas e lucravam com todos estes empreendimentos. Jesus, porém, por fidelidade a Deus e ao povo, tomou a contramão da história. Fez-se o profeta andarilho, que, cheio de compaixão com o sofrimento dos pobres, anunciava a irrupção do Reinado de Deus, e dava testemunho dele pregando, curando, perdoando os pecados, nas aldeias e nos caminhos da Galiléia rural e na pequena cidade de Cafarnaum. Séforis, a bela construção ao estilo romano, sequer é citada nos Evangelhos, mesmo tendo Jesus sido carpinteiro em uma aldeia situada menos de uma légua de seus magníficos edifícios. Em suma: o projeto ético de Jesus nada tinha a ver com o dos romanos e de seu bajulador Herodes. A distância entre estas duas alternativas éticas emergiu no pretório do Prefeito Pôncio Pilatos.
Depois de seu primeiro jejum, Dom Cappio foi a Palácio para dialogar com o Presidente, do qual vestira a camisa em campanhas políticas do passado. Curiosas as coincidências entre o que consta teria acontecido ali e o que nos é contado em João, no julgamento de Jesus. Consta que o Presidente teria encarado Dom Cappio e lhe dito que ele é quem tinha a legitimidade do poder; ele é quem tinha sido eleito com sessenta milhões de votos; ele era quem falava em nome do povo, etc etc e tal. Tal como Pilatos, que dizia pra Jesus que ele tinha o poder para matá-lo ou soltá-lo (Jo 19,10).
O que fica evidente, em ambos os pretórios, é a grande distância e a incomunicabilidade total e radical entre a Pax Romana e o projeto de Jesus. Entre a ideologia do “mundo” dos ricos, das soluções espetaculares e milagrosas; das mágicas, dos jogos de cenários, das grandes paradas; dos rios de dinheiro que correm para os cofres das empreiteiras, da súbita valorização das terras ociosas que são cortadas por vias construídas com o dinheiro público, dos golpes para tornar irreversíveis obras caras e polêmicas do interesse dos poderosos, do pão-e-circo e das outras maquinações do submundo do poder. A “ordem” do mundo é a injustiça, a mistificação e o pecado. Para Dom Cappio e para muitos cristãos e cristãs, a “ordem”, o “mundo” é o projeto da transposição, a “pax romana” tupiniquim que os ricos querem impor a este Pindorama. Aderir a ela é pecar.
Jesus se entrega, pacificamente. Pratica o serviço aos pobres, rejeita o Poder. Dará sua vida para salvar o Homem. Sua figura opõe-se ao chefe da “Ordem”, ao chefe de um sistema que não compreende um rei que não se curva à força do dinheiro, e que renuncia à força, ao espetáculo para defender o seu direito. Veio, viveu e morrerá para dar testemunho da verdade, denunciando assim o mundo e seu modo perverso e mistificador de agir, um mundo cuja ambição é o dinheiro e o poder a qualquer custo, gerador de injustiça, de choro e de perversidade. Todo aquele(a) que pertence à verdade (Jo 18, 36-37) opõe-se a pertencer a essa ordem, não se torna cúmplice da injustiça e da mentira, não é escravo da morte. Abandonado, Jesus não se curva, não trai, não volta atrás, e entrega a sua vida. Dois mundos absolutamente incomunicáveis e inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus. Pena que os cristãos e cristãs parecem estar perdendo esta preciosa perspectiva. Quem dá testemunho disto é mártir.
3 - Compromisso, Coerência e Generosidade
Uma das mais verdadeiras e belas afirmações eclesiais de vontade ecumênica e compassiva generosidade com ao pobres, com o meio ambiente e com a criação em geral ocorreu há poucos anos atrás quando cerca de 130 bispos e pastores sinodais anglicanos, católicos-romanos, luteranos da IECLB e metodistas, inclusive uma bispa metodista, tiveram a coragem de dar seu testemunho assinando o histórico e profético documento intitulado “Os Pobres Possuirão a Terra” , no qual denunciam a injusta realidade agrária do Brasil, defendem a Reforma Agrária, condenam o agronegócio e apresentam propostas concretas aos poderes públicos para promover a equidade no meio rural.
Dom Cappio foi o 53º bispo a assiná-lo. Junto com ele, todos os bispos anglicanos da IEAB, inclusive os eméritos, numa extraordinária afirmação de unidade, amor aos pobres e apreço à justiça e aos valores mais preciosos do Reino de Deus. Aquele documento afirma princípios e compromissos éticos que são muito eloqüentes e atuais.
No número 119, diz textualmente, para as autoridades públicas:
Reafirmamos nossa posição contrária à transposição das águas do rio São Francisco, assim como outras obras hídricas que agridam nossos rios e inundem as terras dos pequenos agricultores. Muito ao contrário de saciar a sede dos sertanejos, a transposição visa saciar a sede dos políticos, das empreiteiras, das empresas de consultoria, dos irrigantes e criadores de camarão em cativeiro. Acreditamos, com muitos estudiosos e ambientalistas e de acordo com o bom senso das comunidades envolvidas, que os objetivos propalados podem ser alcançados com projetos alternativos, mais baratos e de maior alcance, como as iniciativas da revitalização do rio São Francisco, com participação das comunidades ribeirinhas, uma política orgânica e difusa de captação das águas de chuva, a socialização de açudes e poços feitos com recursos públicos e que se encontram sem utilização ou nas mãos de particulares.
Diz ainda, nos números 111 e 115:
A verdadeira referência ética de todas as decisões políticas deve ser o bem comum e não os interesses de grupos econômicos, das agências financiadoras ou, pior ainda, os interesses mesquinhos e eleitoreiros de alguns políticos. A dívida maior que precisa ser paga com urgência é a dívida social com a população mais pobre do País, tão bem retratada no Artigo 6º da Constituição Federal.
Não reconhecemos a opção pelo agro negócio como saída para o campo brasileiro. Como também não aceitamos uma política agrícola que se preocupa mais com o aumento da produção de mercadorias a serem exportadas, do que com a mesa do povo.
Para as Igrejas, recomenda, no item 127 inciso ii:
todas as ações que visam corrigir o que foi destruído e implementar o que for necessário para recuperar e melhorar o meio ambiente, como o projeto de construção de cisternas caseiras para e com cada família do Semi-Árido, bem como outras formas de captação e de uso de água da chuva;
Tais compromissos não representam novidade dentro das orientações pastorais das igrejas, mas indicam caminhos e atitudes coerentes com o Evangelho dentro do contexto atual e permanecem vivamente atuais. Por parte dos Poderes Públicos, pouco ou nada se fez, os ouvidos foram moucos, e as palavras de nossos bispos ficaram ao vento. Há que reconhecer, também, que muitos bispos não quiseram se comprometer com o documento, por diversas razões, e isto merece todo o respeito. Dom Cappio assinou, ele tem o legítimo direito de cobrar, como também teria o legítimo direito – se quisesse – de esquecê-lo.
O que chama atenção, entretanto – melhor dizendo, o que clama aos céus, e deveria calar profundamente na consciência não só dos bispos e dos cristãos e cristãs, mas de toda a sociedade brasileira – é que uma pessoa para ser coerente com o que se comprometeu, com generosidade em favor dos pobres, pelo direito e a justiça de Deus, tenha que entregar seu corpo ao martírio como única solução. Felizes os pobres, porque tem Dom Cappio que oferece a vida por eles. Este gesto confere uma força extraordinária à caminhada deles.
Que mundo é este? Que sociedade doente é esta em que vivemos? Que falta de diálogo, de escuta, de cuidado e de solidariedade? Quando o martírio é a única arma para a coerência de um cidadão, as coisas andam mesmo muito mal.
Quem vai julgar Dom Cappio é Deus. Não é o Governo, não são seus pares, nem somos nós. Ele é apenas um homem coerente. Mais que isto, um cristão que radicalizou seu compromisso com o Reinado de Deus, e que se morrer espera ser ressuscitado com o Cristo. Isto é sagrado.
Muitos lavam as mãos junto com Pilatos. Inclusive alguns dos pares de Dom Cappio, de maneira mais ou menos ostensiva e até mesmo ultrajante. Mas fizeram isto com o lenho verde, com certeza farão ao lenho seco.
Mas não consigo deixar de ficar especulando sobre o que aconteceria caso ele viesse a falecer. Certamente o sangue dele, ao fertilizar a terra, fertilizaria, também, na cabeça e nas mãos de algumas pessoas, e o Brasil não seria o mesmo depois de tão deplorável acontecimento.
(*) Paulo Coute Teixeira (“Pulika” ) é secretário licenciado de Direitos Humanos da Diocese Anglicana de Brasília(IEAB); membro do CEBI Planalto Central; Oblato do Mosteiro da Anunciação do Senhor, em Goiás-GO, e ligado à Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Cone Sul. Aposentado do Ministério do Planejamento, foi economista do IPEA, estagiário da Escola Superior de Guerra em 1989, “fellow” do Economic Development Institute do Banco Mundial, especialista em Planejamento Econômico e Social pela Universidade de Brasília, Especialista em Planejamento do Setor Público pelo CENDEC-IPEA e em Projetos Agrícolas pelo Banco Mundial. Atualmente é artista plástico e participa do DABAR III, curso de formação de assessores bíblicos do CEBI em convênio com a Escola Superior de Teologia da IECLB. Participou, ainda, do curso de formação pastoral no CESEP