|

Igreja e AIDS
Ela é capa de revistas, manchete de jornais e TVs, tema de discussões. É temida como poucos, mas também incrivelmente subestimada. No mundo todo são 42 milhões de pessoas infectadas pelo vírus HIV. Somente em 2003, mais de 3 milhões de pessoas morreram. A AIDS está desestabilizando economias inteiras e levando dor e solidão a milhões de seres humanos. É uma doença que ainda não tem cura. O máximo que os cientistas já conseguiram foi prorrogar o tempo de vida dos portadores do vírus, com remédios antiretrovirais chamados popularmente de coquetel.
O Brasil é um exemplo para os outros países, porque conseguiu desenvolver políticas públicas que privilegiam o acesso dos doentes aos medicamentos que compõem o coquetel. Mesmo assim, os casos de infecção pela doença, que surgiu no país em 1980, não diminuíram. São cerca de 25 mil novos casos por ano no Brasil. A doença está atingindo cada vez mais os jovens, as mulheres e os mais pobres.
Diante desta realidade, o que a Igreja de Cristo está fazendo para combater a doença? Que testemunho está dando aos que sofrem com a AIDS? Estes e muitos outros questionamentos foram feitos durante o Seminário Igreja e AIDS - romper com a indiferença através da esperança , nos dias 2 e 3 deste mês, em Belo Horizonte (MG). Mais de 150 pastores, missionários, educadores e profissionais da saúde participaram das discussões. Além da reflexão, os participantes se comprometeram a desenvolver ações que envolvam a igreja na luta contra a o HIV/AIDS.
Dia - 02/07/04
No primeiro dia de estudo e reflexão sobre o tema HIV/AIDS e o papel da igreja cristã, houve, pelo menos, uma unanimidade: a igreja evangélica ainda está fazendo muito pouco pela prevenção e pelos que vivem com o vírus . As razões para isto são muitas, entre elas: o preconceito, a falta de conhecimento, a complexidade da epidemia e a falta de compromisso com o Reino de Deus.
O seminário foi aberto com a apresentação musical e coreográfica das crianças do Instituto Cristão Ágape Bonfim.
O Pr. Túlio de Sousa Borges levou o público à reflexão bíblica sobre o exemplo de Jesus para sua Igreja. "Jesus tomou o nosso lugar para nos redimir de todas as enfermidades: física, emocional e espiritual. Na cruz, ele sentiu as duas piores formas de sofrimento: a vergonha e a rejeição. Na cruz ele se fez pobre e sofreu a maldição do pecado inocentemente para nos trazer a cura para todas as enfermidades. A igreja é fundamentada na cruz".
Mesa de abertura
A mesa de abertura do seminário foi composta por Ronaldo Martins, gerente de comunicação da Visão Mundial; James Pinheiro, coordenador da Rede Evangélica do Terceiro Setor; Reverendo Luiz Caetano Grecco Teixeira, secretário regional do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) no Brasil; Pr. Kleiner Eler de Moura, diretor do Projeto Minha Casa e consultor em HIV/AIDS da Visão Mundial; e Helvécio Magalhães Jr, secretário de saúde de Belo Horizonte.
Todos da mesa falaram um pouco sobre as organizações que representam. Ronaldo deu as boas vindas destacando a estratégia que a Visão Mundial tem de trabalhar em parceria com a igreja. "A igreja tem uma capacidade de articular pessoas", disse ele. O Rev. Luiz Caetano disse que o CLAI criou uma Rede Evangélica de Solidariedade que está capacitando pessoas para trabalharem nas comunidades e que todos devem fazer isto. O Pr. Kleiner compartilhou o sentimento de solidão que as pessoas que trabalham com as pessoas que vivem com HIV/AIDS têm. "Precisamos sair deste isolamento e nos unir", disse. Helvécio confessou que o governo não conseguirá acabar com a doença sozinho e que o apoio das Igrejas é muito importante.
A realidade da AIDS no Brasil e em Belo Horizonte
A primeira palestrante do dia foi a Coordenadora Municipal DST/AIDS de Belo Horizonte, Dra. Carmen Teresinha Mazzilli Marques. Ela mostrou a realidade e o avanço do vírus HIV/AIDS em Belo Horizonte, no Brasil e no mundo. Segundo ela, "a doença está atingindo cada vez mais o interior do país, os pobres, os jovens e as mulheres". Os dados são alarmantes:
5 milhões de pessoas contraíram o HIV em 2003 em todo o mundo. Destas, 2 milhões são crianças.
95% dos casos de AIDS estão nos países em desenvolvimento. Somente na África são 28 milhões de casos.
66% dos municípios brasileiros têm, pelo menos, um caso de AIDS notificado, segundo o Ministério da Saúde.
O Brasil tem 310.310 casos de AIDS registrados. Estima que 600 mil pessoas convivem com o vírus HIV.
A epidemia cresce 9 vezes mais entre as mulheres.
Minas Gerais: 18.800 casos.
Belo Horizonte: 6.200 casos (78% são homens e 22% mulheres)
Dra. Carmen afirmou que é fundamental o cuidado pessoal para evitar a doença. "Não é possível que o poder público forneça preservativo para todos nas inúmeras relações sexuais que todos têm", disse ela. Outro aspecto destacado é o fato de que a AIDS exige mais transparência nas relações.
Conhecendo as ações dos Evangélicos
Após o intervalo do café, todos cantaram a música de Xico Esvael - A Paz. Lúcia Leiga, da Igreja Metodista, liderou uma vivência em grupos. Os/as participantes foram organizados/as em seis grupos. Cada um recebeu três perguntas para discussão:
As igrejas devem tratar do tema HIV/AIDS?
Quando foi abordado este tema em sua igreja?
Quais são as ações de sua igreja no tema HIV/AIDS?
A discussão foi encerrada e cada grupo pode expor as conclusões obtidas na plenária. A variedade de idéias e realidades foi uma constante. Todos foram unânimes em afirmar que as igrejas não discutem efetivamente o problema do HIV/AIDS. As poucas ações que existem ainda são muito isoladas.
Os grupos também expuseram alguns exemplos de iniciativas bem-sucedidas de entidades e igrejas em comunidades que trabalham em parceria, como, por exemplo, o Projeto Maternidade Saudável, no Rio de Janeiro, que trabalha especialmente com a prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST).
AIDS e Igreja - (Desafio bíblico teológico)
Na parte da tarde, o consultor em HIV/AIDS da Visão Mundial e diretor do projeto Minha Casa, Pr. Kleiner Eler de Moura, abriu a programação tratando sobre os desafios da igreja. Ele foi enfático: "a igreja precisa se arrepender pela omissão e excesso de julgamento quando o assunto é HIV/AIDS". Segundo ele, reduzimos a AIDS a um castigo divino por causa da promiscuidade; e a vítima a um simples diagnóstico. "É muito perigoso tomar o lugar de Deus. O julgamento sem amor suscita inimigos e não convertidos. Devemos repensar nossa maneira de interpretar o outro. Este juízo de valor leva a igreja à omissão. Como julgar, se para alguns, a AIDS foi uma benção, porque os aproximou de Deus e das pessoas, mesmo com tanto sofrimento?"
Kleiner disse ainda que os cristãos precisam aprender tanto com a catástrofe quanto com as vítimas. "Uma praga deveria nos ensinar muitas coisas, como: humildade, gratidão a Deus porque ele nos livrou do julgamento que merecemos, e compaixão pelos que sofrem".
O pastor foi ousado quando afirmou que a igreja precisa aprender com os homossexuais. "Os homossexuais tiveram um trabalho importante no aspecto do controle e da mobilização social contra a AIDS. Temos que aprender sim com eles. Chamo a atenção para o controle social que a igreja não está fazendo. Foram as ONGS e os homossexuais que começaram isto. Não estou defendendo a homossexualidade nem a quebra de princípios, mas apenas dizendo que precisamos ter mais ousadia, porque a igreja tem um poder muito grande de mobilização social."
Falando sobre o compromisso da igreja quanto à cura da AIDS, o Pr. Kleiner disse que ela precisa relembrar o conceito de Graça. "Deus nos ama incondicionalmente; este amor não depende da minha bondade ou da minha maldade. Deus deu as costas para Jesus e teve que fazer isto porque sobre Jesus foi depositada toda desgraça, para que ele fosse a graça. Sem sombras de dúvida, a igreja tem que ser uma depositária fiel da graça de Deus, precisa mudar seu foco".
O Pr. Kleiner ainda respondeu a perguntas dos/as participantes. Uma das questões levantadas foi se o portador do HIV/AIDS é uma vítima ou um sobrevivente da graça. Kleiner respondeu que "se o portador se achar uma vítima ele será uma vítima. Depende do contexto em que ele se coloca e da forma como cada um se enxerga. Muitas ONGs já estão tentando resgatar a imagem de dignidade da vítima".
Três exemplos. Uma única luta.
À tarde, a programação foi iniciada com a apresentação de três exemplos bem sucedidos de organizações evangélicas que atuam na HIV/AIDS.
Casa Refúgio - JOCUM
Funcionando desde 1992, a Casa Refúgio é um abrigo em Belo Horizonte (MG) para crianças com HIV/AIDS, a maioria órfã por causa da doença. 55 crianças já passaram pela instituição. Há sete anos não há mortes no abrigo. Segundo a diretora do projeto, Carla van deer Kooij, um dos alvos da Casa Refúgio é oferecer um ambiente familiar às crianças e, se possível, achar uma família para cada uma delas.
Carla concorda que muitas pessoas não sabem como ajudar o portador do vírus HIV/AIDS. "Há um rio de dificuldades na ajuda ao doente: falta de conhecimento, preconceito e omissão são algumas delas. Que os cristãos sejam lembrados como os que livraram a geração da AIDS", disse.
A JOCUM também criou uma escola que treina obreiros para cuidarem das pessoas vivendo com HIV/AIDS, o que serve como multiplicador de forças no combate à doença.
Projeto Minha Casa.
O Projeto Minha Casa foi fundado em 1995, em Belo Horizonte. Lá, funciona um abrigo provisório para portadores o vírus HIV, que hoje atende 20 pessoas. Elas passam de 4 a 6 meses no abrigo, recebendo alimentação, acolhimento espiritual, físico e emocional. Além disso, o Projeto Minha Casa ainda orienta a pessoa sobre seus direitos previdenciários e de tratamento médico. Segundo a coordenadora do projeto, Rogéria Rodrigues de Souza, "não podemos rejeitar ninguém, precisamos construir relacionamentos e reconstruir uma rede de proteção e apoio ao portador do vírus".
Visão Mundial
Há 2 anos, a Visão Mundial deu início ao Programa HIV/AIDS Iniciativa Esperança. O Programa está levando prevenção e apoio emocional às vivendo com HIV/AIDS que fazem parte dos Programas de Desenvolvimento de Área (PDAs) da organização. Através de palestras educativas, publicação de literatura específica, acompanhamento epidemiológico, apoio à formação de redes de solidariedade entre governo e sociedade civil e outras ações, a Iniciativa Esperança está conseguindo ajudar as crianças e suas famílias que sofrem com os riscos e perigos da AIDS. Segundo o diretor executivo da Visão Mundial, Serguem Jessui, aqui no Brasil a organização já discute o problema da AIDS há aproximadamente 13 anos. Mas neste ano, está acontecendo uma mobilização global da Visão Mundial contra a doença. Ele cita o exemplo do Haiti, onde 40% da população convive com o vírus HIV e para onde a Visão Mundial já enviou equipes de trabalho. Segundo Serguem, esta mobilização precisa do apoio da igreja. "A igreja deve ser o lugar da acolhida, uma comunidade que cuida das pessoas. Se não for assim, para que existimos?", pergunta.
Oficinas Temáticas
O primeiro dia do seminário Igreja e AIDS terminou com a realização de quatro oficinas temáticas. Cada participante tinha o direito de escolher uma das oficinas.
AIDS: Gênero e Prevenção : coordenada por Márcia Rovena, abordou desde as informações mais básicas sobre a doença até assuntos mais polêmicos, como o uso de camisinha entre casais. Márcia pretendeu criar situações bem reais para que os participantes pudessem refletir sobre quais deveriam ser as decisões mais adequadas.
Igrejas Solidárias : coordenada por Eluzinete Pereira que trabalha com o Programa Saúde Integral para América Latina e Caribe. A oficina estimulou os participantes a discutirem sobre o que é uma igreja solidária. Eluzinete mostrou qual foi a vertente das discussões: "É muito bom para o espírito colocar-se no lugar do outro e sentir sua dor".
Prevenção Por Pares : O médico Eduardo Campana coordenou esta oficina, estimulando os participantes a refletirem sobre algumas passagens bíblicas. O texto-base foi Marcos 12.28-31 que fala que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Campana então perguntou: o que é amar? As respostas foram variadas. No final, Dr. Eduardo definiu que amar é cuidar. "A melhor maneira de entender a prevenção é através do cuidado. Amar é prevenir. O trabalho mais importante com o HIV é prevenir", afirmou.
Uso Indevido de Drogas e a AIDS : esta oficina contou com a mediação de Edson Santana. Ele iniciou a discussão questionando por que as pessoas usam drogas. Os participantes puderam dar suas opiniões. A maioria concordou que o consumismo e a mídia influenciam muito no uso das drogas. Segundo Edson Santana, por trás do consumo das drogas, há o conceito do sofisticado que ilude as pessoas a pensarem que terão uma vida melhor, porque serão sofisticadas". Além disso, a oficina também tratou de questões como ética, educação, falta de amor e pós-modernidade e como estes assuntos estão relacionados com a AIDS.
|